segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Volta pra casa na Central do Brasil

             Posicionei-me bem na frente da porta com um monte de gente atrás e dos lados, todos com o mesmo objetivo: lugar pra sentar. Mas já tinha experiência. Abrindo a porta a manada correu. E fui uns dos primeiros a ter assento. Fiquei olhando distraidamente as popozudas do Face. Foi quando apareceu uma senhora em pé. Ao lado um homem fingia dormir. Arrisquei, sem que ela visse que a tinha visto, os olhos para os seus. Disfarcei e tentei me concentrar determinadamente no Face. E ela fragilmente se jogava para frente e para trás, encostando nas minhas pernas as suas, com o balanço do trem. Os braços eram como se fossem ramagens secas, de árvores que se dependuram nas alças do tempo; as rugas do pescoço pareciam leito - de seco rio -, e se escondiam pelas golas de um simples e desbotado vestido de flores amarelas; já nas canelas viam-se de novo as rugas, interrompidas em toda parte por inchaços cardiovasculares azuis. Pensei na minha mãe, na cadeira de rodas que tinha que comprar pra ela: - Quer sentar?

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Encontro na estrebaria II

Diz, Zé.
Tu não és cabra? Tava fazendo o que aqui ontem?
Diz. Que sinhozinho faz nada não. Patrãozinho até que é bom de mais.
Sabe disso né, Zé? Ele te gosta.
Mas aí tem que dizer pra ser mais gostado.
Puxa mais o cavalo, Tião. Que já tá pra falar.
Tá doendo, Zé?
Tu és cabra mesmo...
Tião, larga dele não. Lavoura amanhã.
Com chicote, o dia inteirinho.
Entendeu, Zé?




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Insônia


O diálogo branco da luz,
das sombras nas paredes,
do assoprar das cortinas
e da poeira sobre os móveis.

(O diálogo do dia anterior,
do fortuito encontro na rua,
de algo que nos disseram,
mas teimamos não entender.)

A franqueza dos segundos,
que vai pela pia da cozinha,
o virar insone da cama,
a presença, vulto e estalo.

O arrastar dos passos no assoalho,
a cegueira do inseto na lâmpada
e seu suicídio no copo d'água.
O levantar-se para trocá-la.

O voltar e deitar-se de novo,
o teto com sua plena nudez.
(A certeza do próximo encontro
na rua. Mas antes, o sono.)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Diálogo barroco

Percebendo os tempos difíceis do reino, Pe. Antonio Vieira aconselhou: "Gregório, não quer ficar um tempo na cela, não? Pra descansar. Olha, as coisas não são mais como antigamente, a Santa Sé tá dando uma dura danada." No que ele respondeu: "Eu!? Falem o que quiser, que falar também sei. Mas minha mulata não deixo aqui sozinha não. Além disso, tá cheio de rapina por aí!" Assim, vendo que a Palavra ali não ia frutificar mesmo, Vieira aquiesceu: "Tudo bem, Gregório, que Deus apazigue seu espírito contraditório, feito de luz, poesia, e de Matos Guerra."

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Problemática

Ter problemas
não tem problema nenhum.
O problema é não ter
problema algum.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Uma ligação

- A dona Henriqueta está?
- Não.
(Barulhos de escritório e vozes atrás.)
- Mas a dona Henriqueta...
- Não, ela não está.
- ...
- Tá viajando, sou o filho dela.
- Como?!... Mas é que...
(Muito falatório no fundo.)
- Sim, diga...
- Hoje é o aniversário dela e nós... eu... a gente da... queria pedir, ou melhor, desejar feliz...
- Sim. Comunicar-lhe-ei isso. Obrigado.
- O quê?
- Obrigado.
- Ah... sim sim senhor...
(A ligação é interrompida.)

sábado, 21 de maio de 2016

Poema do silêncio

O espreguiçar tímido da manhã.
O envergonhado bocejo de si próprio.
Uma asa que bate só, estridentemente.

O vozear, o soco na cara, a vergonha,
mais tudo que não queremos nos lembrar
repousa no silêncio dos pássaros da manhã.