segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Encontro na estrebaria VII

É amanhã, Zé.
Si encontramo com o outro pessoal.
Já vigiei o capitão. Vai tá com ela.
Distraído.
Aí é a melhor hora.
E só falar, Zé.
que a gente faz.
Encontro na estrebaria VI

O Navio Negreiro

Que navio é esse
que chegou agora
é o navio negreiro
com os escravos de Angola
vem gente de Cambinda
Benguela e Luanda
eles vinham acorrentados
pra trabalhar nessas bandas
Que navio é esse
que chegou agora
é o navio negreiro
com os escravos de Angola
aqui chegando não perderam a sua fé
criaram o samba
a capoeira e o candomblé
Que navio é esse
que chegou agora
é o navio negreiro
com os escravos de Angola
acorrentados no porão do navio
muitos morreram de banzo e de frio...

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Amor ao próximo


Sempre achei que a pior crueldade que existe é ter pena dos outros. Há um ano já que ia e voltava de metrô do trabalho por causa da minha mulher. Quando podia tocava punheta. Teve um dia que comi uma. O trem tava cheio e ela vinha se encostando, se encostando sem mentira, botei o pau pra fora, e achei suas coxas, com os dedos o elástico da calcinha, e foi tudo muito natural, no meio da multidão.

E descia na estação do Flamengo. Não sei por que eu sempre dava um cigarro pro desgraçado que ficava ao lado do metrô. Desde que minha mulher falou que eu tinha que deixar de ir trabalhar de carro porque poluía, há mais ou menos um ano, eu dava cigarro pra ele. Uma coisa é certa: não era pena.

Teve um dia, depois de uma gostosa do metrô, que sentei pra conversar com minha mulher. Falei que ia comprar um carro elétrico. E ela foi logo dizendo que o primeiro anjo tocou a trombeta, e houve saraiva e fogo de mistura com sangue, e foram atirados à terra. Foi, então, queimada terça parte da terra, e das árvores, e também toda erva verde.

Não tive dúvida, no dia seguinte dei um beijo nela enquanto dormia, tomei um bom café, servido pela minha empregada, e fui trabalhar. Carregando sempre minha pasta na mão direita e com o terno mais invejável de todos executivos, pus na mesa planos, planilhas, estatísticas, prospecções, projetos. O presidente da corporação aprovou.

Liguei para um amigo meu e falei que queria trocar meu carro por um elétrico. “Qual?” “ BMW i 3 elétrico”, disse. Ele respondeu que isso era difícil. Falei que tinha dinheiro, e que era muito importante. Meu casamento! “Tudo bem, amanhã.”

Voltei de metrô. Ao mesmo tempo que uma paraíba fazia cara arretada, enfiava o rabo no meu pau. Empinava pra trás como se nada estivesse acontecendo. Se abanava e dizia que calor. Tava com uma amiga que olhava com ar de inveja e reprovação. Continuaria até chegar a estação.

Saí já separando o cigarro do meu amigo. Tava lá, magro, parecendo um mago, cabelos gravitacionais e brancos, nariz pontiagudo, pulsos que são emaranhados de veias, costelas tão expostas que dariam inveja a Adão. Dei o cigarro, e ele nunca me pediu nada.

Descendo a calçada que dá pra Marquês de Abrantes, senti uma presença atrás de mim.
- Me dá um cigarro!
Disse que não tinha.
- Mas você deu pra ele.
- Acabou.
Parei no sinal. E o sujeito parou do meu lado dizendo que só tava pedindo. E que só pedir era um gesto de humildade e que não era ladrão.
- Acabou.

O sinal demorava a fechar. Senhoras, mães e crianças voltando da escola também esperavam. Ele se encostou em mim do lado direito. O que todos tinham em comum ali era atravessar a rua. No meio dela ele puxou meu braço direito, o da pasta. Dei uma cotovelada no rosto. Ele recuou sentindo e ameaçou algo na cintura. O idiota estava visivelmente bêbado, falando que ia me matar. Mas se aproximou e acertei com a esquerda o seu rosto, logo em seguida dei uma banda e biquei sua cara, biquei uma, duas, três, várias vezes, e pisei no rosto, até afundar meu pé. Alguém disse para parar. Aí não sei. Não me lembro mais. E pouco me importava se o tinha matado. Só me lembro que um motorista do sinal, que não sei se por impaciência ou cegueira, passou em cima de suas pernas.

Cheguei em casa dizendo para minha mulher que a vida ia mudar. Que tinha comprado um carro elétrico top de linha. Ela ficou feliz. Levei-a para um restaurante. E fizemos amor.

No dia seguinte, a empregada disse em particular que tinha achado isso no meu bolso. “Obrigado!” e dei cinquentinha: “Seus filhos são lindos!” Era o telefone da Edileusa, a paraíba do metrô, queria me encontrar. Combinei com ela na estação Central do Brasil, sentido zona sul, às seis. – Melhor ir de saia, beijos.

Anos depois fiquei sabendo que o cara do cigarro morreu de câncer e o outro pregava no Largo do Machado sem as duas pernas, mas ganhava seu dinheirinho. Minha mulher o conhece. Tinha pena.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

meia-refeição


meio punhado de arroz
meio punhado de feijão
meia cebola e alho
meio-homem

e um punhado cheio
e cerrado

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Tudo ou nada


Maria sente frio
mas falta cobertor.

José tem cobertor
e não passa frio.

Mas aí vem o sono
sem onde cair.

Décio não sente nada.
Ele come bastante.

E se farta de tédio.

sábado, 22 de outubro de 2016


Passeio perdido

Trabalhei de domingo a sexta. Saio na rua hoje pra relaxar e me perguntam:
- Não trabalha mais não?

É. A gente nunca foge inteiramente das nossas obrigações. Pois certas perguntas dão um trabalho danado para responder.
- Não - disse já meio desanimado e bufando.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Pragmática


        Minha mulher pediu um dinheiro. Peguei o que tinha na carteira.
        - Vou dar minha caminhada, nos vemos mais tarde.
        A cumplicidade é o melhor que existe no amor. Não queria encontrar ninguém. Mas logo veio o Ostaldo com aquela cara de sempre.  Sempre achei que as pessoas com nomes estranhos têm que superar. Ostaldo era dono de uma construtora.
        - Oi. Você tá com uma cara boa!
        Fui cortez. Estou com uma cara boa. Sim, é verdade. Atravessei as pistas pela passarela, olhando a velocidade dos carros. Cheguei na beira mar e andei no asfalto. Passou um adolescente ruivo, gordo e meio que envergonhado; depois uma senhora, que abria os braços como que se achasse o mistério da vida; um atleta forte, mas  sem com quem competisse; um gay que se alegrava com tudo; uma frágil mulher, que só figurava o ambiente; e outra de narizinho em pé, que não era nada sem o marido.
         Ultimamente tenho adquirido hábitos diuturnos. Deixei os amigos da noite, a noite não leva a nada, só a reclamação da sua mulher. Acho que é por isso que dizem que ando bem. Mas mudar uma rotina não é nada fácil. São pessoas diferentes, conversas, gestos, tudo é diferente. Você tem que se adaptar rápido, antes que percebam.
         Segui pela orla, passei pela pista de aeromodelo;  do outro lado minha lancha estava ancorada. Cumprimentei o idiota do vigia, que logo ficou atento quando me viu. Segui. Passei pelo monumento dos pracinhas, pelo MAM, pelo Boqueirão.
         Hoje em dia não se deixa ir até a cabeceira da pista do aeroporto. Ia quando era moleque com meu pai ver os aviões decolarem. Mas não tenho saudade disso. Passado é passado. E a gente pode encontrar coisas melhores. Assim, fizeram, antes da cabeceira, uma espécie de cais feito pedra e terra, que se estende  nas água calmas do porto da glória por uns 100 metros, dando  uma visão privilegiada, pois logo se via a imponência do Pão de Açúcar logo à frente, e à direita os barcos ancorados; no entanto, pela esquerda, uma imensa  turbulência de águas, devido ao périplo do aeroporto.
         Lá na ponta uma mulher de seus 30 anos distraía-se com as águas. Era bonita. Seus cabelos soltos e tingidos vagavam junto ao destino do vento. Quando me viu chegar, fingiu elegantemente. Ficou mais bonita ainda.
        - Belo dia!
        Virou para o lado como quem não quisesse conversa, mas disse vagamente:
        - É...
        - Sim. Um dia bonito. Até aquelas pequenas nuvens se afastaram do Pão de Açúcar para aquele belo casal, que tirou o dia para passear, ver a gente lá de cima. Tá vendo?!
Ela riu, olhou-me nos olhos, e se encabulou.
         - Você já pescou? Disse pra dizer alguma coisa.
         - Ia sempre com meu marido, fiz tudo por ele. Fiz... mas...
         - Onde?
         - Angra.
         - Sei...
         - Mas ele vai ver!...
         - Calma, calma. A vida é assim mesmo. Você é bonita... Olha... Quando te vi lá de longe, mais longe do que aquele casal lá de cima imagina... E vi seus cabelos como ondas de mar..., e seu olhar, seu olhar lá naquele monte...
         Ela me puxou pela nuca com finos mas determinados dedos e me beijou. Beijei-a também. E peguei nas ondas dos seus cabelos, clareados  artificialmente. Puxei. Ela gostou. Puxei com toda força que pude. - Aí! Ela entendeu. Arrastei seus cabelos até as pedras, onde as ondas batiam. E tudo acabou.