quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Amiga de longa data


Ontem uma amiga minha de anos, que já deu pra metade do bairro, melhor, quase todo, se o recurso da hipérbole não for vulgar e inapropriado, e às vezes em grupo, porque ela gostava mesmo, e as pessoas que não comeram (em geral moralistas cuja a dissimulação da inveja está sempre a jogar pedras e subestimar as fraquezas da carne) recriminavam. Enfim, passou por mim, com seu namoradinho ex-um-monte-de-coisas, que não vale um parêntesis; o que não me habilito a dizer (por uma questão de ética, claro) é se é ex-corno também. Passou, de mãos dadas, indo à Igreja Evangélica dos Últimos Bem Aventurados e não me cumprimentou. Quando passou olhei sua bunda. Não sei se os moralistas ainda reclamam. Creio que não, pois o rebolado continuava o mesmo. Jesus!

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Prepúcio

O padre pediu-me para que baixasse as calças. Achei estranho, mas de uma estranheza diferente, não era medo mas também não era coragem, ninguém tem coragem do que não conhece. Era obrigação e um certo respeito.

Via, nos álbuns de fotografia, que Ambrósio era amigo da família e confiável, entendedor de latim, de Aristóteles, das Escrituras. Batizou-me, fez minha primeira comunhão, dava conselhos nos estudos bíblicos.

Uma vez, quando acordei, meu pau ficou de uma maneira diferente. Não sabia o que era pau (achava que só servia pra fazer xixi) e não sabia o que era diferente, de seus outros usos. Só sabia que me incomodava porque toda vez que ficava duro era um prazer diferente do prazer de comer um doce ou sentir as cócegas na nuca que sentia quando minha irmã mais velha chegava da faculdade me chamando de anjinho com um olhar diferente e, de corpo meio mole, levemente passava seus dedos.  Era um prazer que não sabia bem, mas que doía.

Não falei pra minha mãe nem pro meu pai, por falta de tempo e vergonha. Mas Ambrósio, acho, que percebeu. Perguntou como estava o colégio, fez algumas perguntas inúteis de gramática (que prontamente respondi), tergiversou sobre a razão e os caminhos seguros da fé em Deus. E que toda fé exige estudo, sabedoria, filosofia, que os protestantes tinham uma fé cega, falsa e irrefletida, sem o respaldo da escolástica, da razão e da lógica, já que Deus iluminara o homem para contemplar a perfeição - apesar de todos seus defeitos, claro - dizia buscando algum pensamento recluso, algum mistério da fé. Enfim, falava de muitas outras coisas que acho que só entendi depois, na mesma época que descobri o que era dinheiro e poder. Aí comecei a achar que era esse todo mistério, a revelação de todas incertezas humanas. De qualquer maneira, foi assim que, já nu, ele se aproximou.

- Não se assuste, meu filho.

Quando fazia para frente e para trás - igual a sensação que tive sem saber e sozinho no banheiro dias atrás - com a mão direita, deu aquela sensação esquisita, mas era bom, mas doía também. E assim ficamos durante algum tempo. Até ele dizer chega, buscando alguma medalha ou santo perdido na sacristia. E já  suando desabafou que a diocese precisava mandar vir os técnicos de ar-condicionado, que isso era um absurdo!

Uma semana depois,  minha mãe e meu pai me disseram que eu ia fazer uma cirurgia, que era tranquila - e muito importante, meu filho. Era uma pele que devia ser retirada - disseram sem muita explicação.

Foi quando cresci e adiquiri esse hábito constante. Mas que só confesso ao padre Ambrósio.





domingo, 8 de outubro de 2017

Variação linguística

O cara pediu:
- Dar-me-ia um ósculo?
E recebeu um tapa.

domingo, 24 de setembro de 2017

A mais bela

Foi-me apresentada a moça mais bonita.
A moça mais bonita me foi apresentada.
Foi apresentada-me a mais bonita moça.
Me apresentada a moça mais bonita foi.

E fiquei sem palavras.

sábado, 23 de setembro de 2017

No metrô


- Um homem tropeçou.
Se descuido do chão
se descuido de pé
se descuido do homem?...
- Não sei não, meu senhor.

Foi assim que caiu. No vão
da manhã e de saída.
Nem houve despedida.
E na pressa, dizia-se:
- Meu Deus! que horror!...
                  foi a todos que atrasou.

sábado, 16 de setembro de 2017


(Poesia inséria)

Um poeta
que só fala de amor
é mais trágico que a dor
de um galo na testa.

E um amante
sem justa tragédia
é  comediante
de rima geleia.




Anel de ouro


Eu entrei na casa do cara e ele disse que eu era o detalhe que só o verdadeiro homem enxergaria. Achei de muita pretenção da parte dele. Mas fingi que ri.  E acho que ele gostou mais do meu riso do que o que dissera.   E não sei se foi por causa disso ou se por que tava em plena forma, mas  teve uma hora que começei a levar as coisas a sério. Seus braços me envolvendo e segurando. A deliberada invasão que se deixa, a resistência sem forças, o esquecer-se, o corpo dele no meu como se tudo fosse uma coisa só. Sem palavras, sei lá...

Não me importa como vocês nos chamam. Mas nós, putas, prostitutas ou garotas de programas,  já estamos acostumadas a escutar histórias sem fim. Que se separou, que o melhor amigo pegou sua mulher, que tá de saco cheio, que o pau não levanta mais, que deu o cu e se arrependeu. Tem de tudo nessa vida. Esse cara que te falei,  por exemplo, era noivo. Disse que ia se casar. Era mesmo, tava com uma aliança enorme no dedo. Mas não dei bola, continuei conversando com o coroa babão que pagava minhas cervejas e tentava enfiar as mãos na minha xoxota. O garoto se encostou no balcão. E ficou quieto. Arranjei um jeito pra me livrar do coroa, chamei uma amiga minha que tava sempre na merda, empurrei ela pro velho e saí do pub. Deu certo, o menino veio atrás, mas não dei muita ideia.

Era um rapaz, bonito, de seus 25 anos, acho que devia fazer alguma academia, pois os braços eram bem definidos e fortes. Mas nada que exagerasse muito. A firmeza do rosto era atenuada por um olhar misterioso e suplicante.
Não era igênuo e soube perguntar quanto era. Acho que senti vergonha. Acho que daria de graça. Mas me valorizei. Ele falou que não tinha tudo isso. Valeu, gato, e saí andando. Tá bom! ele disse. Mas só tenho isso e um pouco de sentimento, falou me agarrando e super excitado. Dei uma chance.

No seu kitnet contou a sua vida. Que ia se casar com uma gordinha rica que amava ele. E ele só gostava dela, e nada mais. Mas que o pai da gordinha achava ele um bom partido e que ia arranjar um emprego de diretoria na empresa, que queria ver sua filha feliz e por isso já tinha até comprado as alianças - e mostrou o dedo. Eu disse que ele tinha que se casar, que era um cara bonito e inteligente, que era o escolhido.

E era mesmo. O cara era bom. Passei até da hora com ele. Enfiava o dedo na minha buceta - como poucos homens sabem fazer -, nos meus cabelos, no meu ouvido, na minha boca. (Tentou enfiar por trás, mas não deixei, não gostava e ainda bem que ele entendeu.) Aí, quando tava gozando, chupei com todo desejo seu dedo, seu anelar direito. E logo em seguida ele gozou e caiu com todo seu peso em cima de mim. Me comprimi e segurei ele como um ursinho. Mas segundos depois - como todo homem faz - se levantou, andou de um lado ao outro no quarto e disse que ia tomar um banho.

Me vesti rapidamente - tenho que confessar, tava com as pernas bambas. Mas me vesti e fui embora sem ele ver.


Cheguei em casa, tomei vodka, comi mamão e ingeri duas cápsulas de lactopurga. Uma hora depois o efeito veio. Sentei na privada e expeli tudo e me senti bem mais leve.

Botei uma luva de borracha amarela, dessas de faxina, peguei a aliança, dei a descarga. Lavei-a. Tava cansada. E acabei dormindo e sonhando com ela no meu dedo. Acho que está na hora de eu me casar - pensei antes de dormir.