quinta-feira, 17 de agosto de 2017


Conselhos para uma moça de 25 anos

Faça tudo de útil na sua juventude
antes que o encanto se disfarçe
em farça de "era uma vez".
(Sem talvez nem isso.)

O tempo corre.
É como nosso sol e suor diário.
Ao meio dia
não o vemos se mexer
mas quando declina na linha do
                                                  [horizonte
logo as sombras se prolongam,
tomam todo crepúsculo do nosso ser.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Amarguras de um jovem poeta na internet

Depois da exaustão de mais uma noite escrevendo (jurando que não ia fazer mais isso porque tinha outras urgências e é tanto trabalho pra nada!), no dia seguinte veio uma surpresa no face: "Josildo Monteiro. Artista. Patrocinado". Saiu num pinote de alegria e acordando sua mãe, com quem ainda morava, disse que ia sair de casa e ajudá-la no que pudesse, depois ligou pro seu pai e sem mágoas falou que não tava chateado não, que entendia ele, afinal, tinha outra família, e que ia organizar uma festa de reconciliação. Claro, não se esqueceu daquele amigo da escola que sempre o desafiou. Juiz! Sim, ele é bom. Mas agora Josildo Monteiro era artista! E nem precisava procurar patrocínio! Chamou-o para tomar um uísque e jogar poker - quem perdesse pagava. Por fim, confiou que a garota inatingível - daquele belo poema escrito antigamente - ia finalmente esmorecer nos seus braços.

Abriu o face de novo, quis saber mais do assunto.  Quem eram os patrocinadores?

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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

UM POEMA HIPOTÉTICO

é
po(s
        s)ível
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in    vis    ível
    di      z
Visão de mundo

Certa data - nessas que quebram a monotonia do dia a dia -, vi uma ceguinha. Melhor dizendo: ela me viu. Isso mesmo! pois distava dela nem muito nem pouco e ela veio a mim: "Por favor, poderia dizer onde estou?". Fiquei surpreso por sua aguda sensibilidade ao me perceber e não me demorando fui ampará-la. Disse-me então que estava num ônibus com uns amigos indo passear em Pquetá. No entanto umas pessoas, que dizia não conhecer, dissuadiram-na a descer antes. Foi o que fez e se viu desamparada no meio da Central do Brasil. Para não dizer no mundo.

Mas não quero ater-me aqui à questão do desamparo aos deficientes físicos, não por desprezo, mas porque isso a gente já está careca de saber. O que mais me impressionou foi o fato de ela estar indo a Paquetá. Conseguiria ela contemplar a beleza lá existente? Certamente que sim. Contemplar não é tão somente ver. Rompe a barreira da visão, junta-se aos outros sentidos e segue um caminho infinito e místico. Ter uma contemplação é ter plena consciência do que nos cerca, é ter plenitude, ela é nobre apuração dos sentidos (qualquer que for), é o espírito num feitiço, brota perfeição, cria magicamente luz das trevas. Enfim, talvez a moça sendo cega consiga iluminar-se tão bem quanto um membro do Santo Daime, ou quanto algumas seitas que jejuam para ver Deus, ou ainda o nirvana budista, ou então ufólogos que contemplam discos voadores, ou os antigos entorpecidos dos rituais dionisíacos, ou os novos, que, extasiadamente, se purificam ao cheirar cola, cocaína e por aí vai...

É lógico que os dois últimos itens coloquei-os por ironia, para tornar fino o estilo e realçar que há certas coisas na vida que só o sarcasmo nos dá autoridade. Pois se havia algo que poderíamos (no plural, porque mesmo sem ver, acho que ela via tudo) contemplar ali era o céu, não só para achar Deus e reclamar que as coisas aqui estão ruins, mas também porque era o que sobrava de natural e azul. De resto, pois, até as parcas árvores eram cinzas. Do asfalto saía um vapor de gasolina; no chão restos de plásticos, guimbas de cigarros, panfletos, sujeira, muita sujeira; dos prédios caíam gotas quentes, como se a própria construção derretesse. E as pessoas? As pessoas não pareciam pessoas, assemelhavam-se a programas sofisticados, marchavam de um lado ao outro, e paravam sistematicamente quando o sinal abria aos carros, e fechando os pelotões de calçadas opostas iam-se de encontro, como se fossem guerrear. Alguns precipitavam-se na avenida ainda aberta como se tentassem suicídio; outros andavam no meio dela por sobrevivência, vendendo água biscoito, refrgerante; e outros ainda, em geral crianças, não vendiam nada, só a mão vazia, pequena e franzina (mas berrante) e a miséria, que nem precisava sorrir seu sofrimento para conseguir o trocado.

É... Melhor é nossa amiga ir a Paquetá sem demora. Lá ela vai contemplar o que os protótipos não de robôs (porque isso já somos e de geração evoluída), mas de homem (coisa que tem de ser reiventada), não conseguem ver. Aqui na metrópole só se pensa em dinheiro: a única visão possível. Não que seja desprezível, todavia se fosse bem distrbuído, todos teriam uma tardinha tranquila em Paquetá, ou em alguma praia do Nordeste, ou no Caribe, ou em qualquer lugar, pois o mundo deveria ser sem muros físicos e etnocêntricos. Deveria ser para todos!

Enfim, não é porque nem sempre a gente vê o que quer que desistiremos, pois se assim fosse nossa simpática ceguinha já haveria abandonado seu árduo projeto de ir a Paquetá. Ir a esse lugar para quê? Para não ver nada? Mas isso já foi comentado. Sua admiração na ilha será possivelmente mais clara, perfeita e serena do que essa ilusão do homem de consumo, que acaba se consumindo; desses sérios e graves, de paletós e gravatas, de negócios altos e hora marcada, de visão empresarial, mas que muitas vezes veem menos que cego.

Depois de ela me explicar tudo, deixei-a num táxi. Falou-me que iria tentar reencontrar os amigos na Praça XV e, finalmente, seguiria seu destino à ilha. Deixo um conselho: faça o mesmo, vá a Paquetá e tente não somente ver, mas contemplar uma vida bem melhor, deslumbrante!

Jornal "Arte e Política" - n° 18, 2003.


domingo, 30 de julho de 2017

Ficha

Depois de tantos anos de desrespeito, o cara olha pro espelho e diz: - Será que ninguém vê isso, meu Deus?!

O espelho elegantemente não diz nada. Só faz refletir num silêncio respeitoso, porém dramático, o que sempre viu.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Inveja

   Já atrasado pra ir trabalhar e com míseros 3 reais sobrando, parei pra comer um cachorro quente e guaravita. Um mendigo alto, branco, cabelos compridos e olhos verdes me pediu para pagar um, que tava com fome e tal. Irritado falei que não tinha. Mas logo à frente, em outra carrocinha, uma moça simpática e bonita deu pra ele. Engoli o último pedaço, olhei o relógio e bufei já com passos apressados e paradoxais: - Esse infeliz ainda é mais feliz do que minha infeliz felicidade.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Poema da dor

Os poetas não são uns fingidores.
Sentem verdadeiramente dor de verdade.
Acredite ou não,
eles têm problemas clínicos seriíssimos.
Que os fazem parar
(e as enfermeiras de plantão bem o sabem)
no Sousa Aguiar
com uma puta dor de coluna.
Ou coração.
Ou um último bilhete no bolso.
Às pressas, racunhado.
Ou sem mesmo nada. Porque,
nessas horas
quem é que vai pensar escrever alguma coisa?