quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Insônia


O diálogo branco da luz,
das sombras nas paredes,
do assoprar das cortinas
e da poeira sobre os móveis.

(O diálogo do dia anterior,
do fortuito encontro na rua,
de algo que nos disseram,
mas teimamos não entender.)

A franqueza dos segundos,
que vai pela pia da cozinha,
o virar insone da cama,
a presença, vulto e estalo.

O arrastar dos passos no assoalho,
a cegueira do inseto na lâmpada
e seu suicídio no copo d'água.
O levantar-se para trocá-la.

O voltar e deitar-se de novo,
o teto com sua plena nudez.
(A certeza do próximo encontro
na rua. Mas antes, o sono.)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Diálogo barroco

Percebendo os tempos difíceis do reino, Pe. Antonio Vieira aconselhou: "Gregório, não quer ficar um tempo na cela, não? Pra descansar. Olha, as coisas não são mais como antigamente, a Santa Sé tá dando uma dura danada." No que ele respondeu: "Eu!? Falem o que quiser, que falar também sei. Mas minha mulata não deixo aqui sozinha não. Além disso, tá cheio de rapina por aí!" Assim, vendo que a Palavra ali não ia frutificar mesmo, Vieira aquiesceu: "Tudo bem, Gregório, que Deus apazigue seu espírito contraditório, feito de luz, poesia, e de Matos Guerra."

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Problemática

Ter problemas
não tem problema nenhum.
O problema é não ter
problema algum.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Uma ligação

- A dona Henriqueta está?
- Não.
(Barulhos de escritório e vozes atrás.)
- Mas a dona Henriqueta...
- Não, ela não está.
- ...
- Tá viajando, sou o filho dela.
- Como?!... Mas é que...
(Muito falatório no fundo.)
- Sim, diga...
- Hoje é o aniversário dela e nós... eu... a gente da... queria pedir, ou melhor, desejar feliz...
- Sim. Comunicar-lhe-ei isso. Obrigado.
- O quê?
- Obrigado.
- Ah... sim sim senhor...
(A ligação é interrompida.)

sábado, 21 de maio de 2016

Poema do silêncio

O espreguiçar tímido da manhã.
O envergonhado bocejo de si próprio.
Uma asa que bate só, estridentemente.

O vozear, o soco na cara, a vergonha,
mais tudo que não queremos nos lembrar
repousa no silêncio dos pássaros da manhã.

domingo, 15 de maio de 2016

Encontro na estrebaria

- Olha Zé, dá mais não. Você não me prometeu? Olha aqui, tava servindo a sinhazinha e sem querer caiu uma gotinha no chão, deus que me livre guarde que não foi no vestido dela não. Mas não é que a endiabrada gritou, como se tivesse morrendo.
Justo na hora que o patrãozinho passava.
Tomei uma surra, ela ficou lá, calada e sem nada a ver com nada, num canto sem miolos, acho que tinha pena.
Mas só porque tinha maldade.
Zé.
É quando, amanhã?

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Essentials of English Grammar



Como estou sem internet em casa (devido a recente mudança), é-me dificultoso elaborar pensamentos tão velozes para dedos tão inábeis e lentos para um smart fone (pelo menos em comparação com os dessa garotada). Mas papacientes para ter alguém em que possa confiar a história desse livro.


Olhei bastante, eram uns 20 (Quando compro livro os intereses comerciais impedem-me de ser conduzido por qualquer sentimentalismo, pelo menos sempre me proponho a essa regra). Não sei quem era o dono do negócio nem se era sociedade, mas eram três garotos, de seus 11, 12 anos de idade, nas calçadas do Catete. Ao ver meu interesse, um me abordou com perspicácia:

- 1 é 5, 3 é 10!

Não tinha coisa muito boa.

- Não não, valeu - disse já quase indo embora.

Num curto instante então ele olhou pro chão, como se tentasse achar solução rápida para alguma coisa, mas com uma mistura igênua e sincera de frustração. E era tão novo!

Olhei outra vez, mais pacientemente, tentando me convencer de que havia alguma coisa que me servisse, mesmo que não auferisse vantagem. Foi então que lá longe, numa remota ponta fugindo de fininho, que vi esse livro.

- Quero esse - tomando-o logo pelas mãos.

Imediatamente o garoto levantou os olhos, irradiantes; talvez tenha pensado em me oferecer mais dois, mas como já estava com 20 na mão disse:

- Calma aí. Troco pra você rapidinho.

E foi.

Durante esse tempo, um dos seus colegas cochichou no meu ouvido se eu não queria pegar  outro de graça. Senti o ar da traição, poderia traí-lo também. Mas disse:

- Não não... Isso é trabalho. Vocês tão trabalhando...

Foi a única coisa que me veio à cabeça, que consegui enfim dizer. Peguei o troco, agradeci ao vendedor com um aperto de mão, e fui embora.


Esse livro não vou vender, vou estudá-lo. Jespersen é um notável linguísta e não é fácil achá-lo. Acho que não sai por menos que 80 reais.