quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Ao rés do chão: a crítica literária atual 


   Outro dia entrei numa livraria onde fica o cinema na praia de Botafogo e a estante de crítica literária, que já ficava ao fundo, foi submetida agora a uma prateleira rente ao chão, difícil até  de visualizar. Mesmo já imaginando, perguntei  para moça por que colocaram naquele lugar. Ela, educadamente ou com algum pudor, não respondeu com palavras, mas fez aquele gesto que adivinhamos: "Porque não vende, meu senhor".

   E por que não vende? Creio que porque a crítica literária está cada vez mais diluída em textos de poucas páginas. O que resta são antologias escritas e organizadas por professores universitários. Sempre às pressas para obter boa avaliação no CAPES ou bolsa de produtividade de pesquisa (CNPq). Por isso, infelizmente, como salienta José Luís Jobim, "(...) livros de grande qualidade, mas que levam uma década para serem produzidos, como a Formação da Literatura brasileira de Antonio Candido, por exemplo, dificilmente são ou serão escritos hoje no país" (p. 33).

   Segundo Jobim (idem), isso não acontece apenas no Brasil e está inserido numa máxima norte-americana: "publique ou morra". Desse modo, a crítica literária atual parece até, com o perdão da piada, classificados de jornais. Observa-se antologias com inúmeros artigos - às vezes chegando ao número de vinte ou mais - e apenas com 3, 4, 5 páginas (com sorte terá 20). 

   Apesar de apresentarem propostas muitas vezes interessantes, não há profundidade, não se perscruta o assunto em todos os ângulos, não se penetra no mundo do texto. Não se é analítico. Mesmo uma crítica impressionista da primeira metade do século XX possuía mais embasamento e conteúdo. Hoje em dia, pode-se citar muitos filósofos, psicanalistas, historiadores e xamanistas, mas não lhes explicam o pensamento (o leitor que se vire). São artigos rasteiros, superficiais e mal conseguimos deles ter uma reflexão, penetrar no íntimo do texto crítico - que também pode ser uma opção de prazer intelectual - e, muito menos ainda, do escritor em questão. Já me ocorreu algumas vezes estar lendo uns desses artigos e ter a impressão de que não foi terminado. Parece até que o ensaísta saiu para fritar ovos e não voltou.

   O leitor universitário, que quer estudar um aspecto de Graciliano Ramos, por exemplo, dificilmente vai comprar um livro desses para ler apenas um artigo, já que muitas vezes até a lista de autores e temas são diversificados. Esse leitor vai buscá-lo na internet, onde é fácil achar o mesmo texto. E mesmo o leitor que busca ensaios por mera fruição não vai buscar esses livros, porque o prazer de leitura, muitas vezes se constrói lentamente, com idas e vindas, com profundidade de pensamento, com descobertas que se avolumam e se amalgamam ao raciocínio, ao corpo e à imaginação. Aliás, lembra-se da madeleine de Proust?... Um prazer de pura lembrança que paulatinamente cresce e nos possui. Pois então, ele também teve dificuldade de publicar devido ao enorme tamanho da obra. Com a crítica, cujos meandros são reflexivos - mas também sensoriais -, não é muito diferente. 

   Ao ler este texto, alguém deve estar se questionando se isso é possível em tempos líquidos. Ou seja, em tempos onde o próprio tempo tem pressa e certo medo do tempo. Em relação a esses desconfiados, que de maneira nenhuma estão errados, tão imbuídos estão com seus múltiplos afazeres, a resposta é sucinta: mais vale um texto na mão do que dois voando. 

   É nesse sentido que Antonio Candido, por mais que alguns o julguem "anacrônico", é vendido e lido até hoje. Seja por especialistas ou não; seja para pesquisa ou por puro deleite; seja por poetas e não poetas. Na Formação da literatura brasileira as análises são detidas, sentimos a atmosfera da época, seu cheiro, sua cor, seus dramas - concordem ou não com os conceitos levantados pelo autor. O escritor de crítica deve fazer - tal como boa parte de filósofos, mas sem misturar os papéis - uma análise mais detida e demorada, levantando, inclusive, todos os contraditórios. Só indo ao "ponto G" do texto, ao seu cerne ontológico que encontraremos o verdadeiro desfrute do livro. Talvez seja isso de que necessita atualmente a crítica literária para alçar os altos lugares das prateleiras.


REFERÊNCIA: 

JOBIM, José Luís. A crítica literária e os críticos criadores no Brasil. Rio de Janeiro: Caetés: EDUERJ, 2012. 


Ivo de Souza 

(Rio, 9/9/2026)




sábado, 22 de agosto de 2026

Para Marly Gonçalves da Costa

(in memoriam, 31/12/1940 - 26/08/2026)

mais nada a fazer

 

Agora é só esperar a tal ligação:

‒ Ivo, então...

 

22/08/2026


domingo, 21 de junho de 2026

 Elevador 2 - Objeto do esquecimento 


O sexto tinha sido apertado antes que eu.

Puto, sem querer ver ninguém,

fui planejando os bons dias.

Quando a porta abriu

uma moça,

cujos olhos se assustaram,

disse:

- Esqueci uma coisa em casa.

E desci sozinho.

Chateado, como se estivesse esquecido também:

meu rosto no espelho de casa.


Cheguei ao térreo.

Um pouco além: era o poço. 

domingo, 7 de junho de 2026

Elevador 1 - Vizinha do mesmo andar


Ela já esperava aflita.

O porteiro acho que foi dar uma mijada.

E apertei com mais força o botão.

Desculpa desculpa...

Bom dia.

Bom dia.

Bom dia.

Entramos.

Ela foi de escada.

Eu de elevador.

Chegamos juntos, hein?

Ela deu um sorriso. 

sábado, 6 de junho de 2026

              eu ando pra mais longe de casa

pra chegar em casa 

domingo, 24 de maio de 2026

 

Aula 5 – Chefe

 

‒ Tudo bem, chefe!

respondeu o garoto ao professor

ou talvez quem respondesse

fosse o vulto do seu pai

que um dia escutara dizer ao telefone

para o chefe apressado

que o queria sem falta amanhã

e depois de amanhã

e depois do depois do amanhã

e assim ‒ sem parar ‒ todos os dias

sem descanso para o esqueleto

e refresco para a alma

enquanto o garoto

                                ‒ na sala simples

                                com sofá coberto por um tecido puído

                                mesa enfeitada com flores de plástico

                                desbotadas de tanto serem lavadas

                                piso acimentado

                                varrido cuidadosamente todos os dias por sua mãe

                                o que não evitava porém

                                as lacraias as baratas os percevejos

                                para os quais

                                chinelos ordinários e vassouras piaçavas

                                lhes serviam de poderosas armas

                                sob a lâmpada equilibrada por um fio

                                na telha de amianto de onde se vê um furo

                                que um dia vazou uma bala de fuzil

                                e agora

                                em dia de sol

                                vaza o longínquo céu

                                e a lembrança de dias promissores

‒ enquanto isso o garoto

(com seu rosto entre o azul negro neon

sob o brilho artificial do jogo eletrônico

cuja vitória não é nada real

e o sal da vida o aguarda lá fora)

escutava seu pai

marcado fatalmente por aquele furo na telha

entre a paciência servil e a exaustão

dizer:

‒ Tudo bem, chefe!

amanhã chego bem cedo na firma

antes mesmo que o sol se levante do chão.

 

Mas como poderia ‒ logo ele, o professor ‒

ser o chefe?

 

                               Onde estaria o terno da autoridade,

                                a sóbria gravata que o enquadrasse

                                nas molduras dos palácios da glória?

 

Onde estariam os sapatos de couro,

pretos, firmes, ilustríssimos sapatos

que lhe valessem a notória vaidade?

 

                                A carta de crédito, a felicidade

                                comprada a prazo, a quitação

                                do sonho ‒ que não se fez realidade.

 

                                Onde estaria tudo isso?

 

E mais ainda: a certeza dos livros lidos

das horas que sublinharam pensamentos

que arquitetaram soluções cristalinas

que desenharam

‒ com a certeza vã de quem joga na loteria ‒

sistemas tão infalíveis quanto o planar de um albatroz.

 

Atroz dúvida

verdade insuspeita:

                               o chefe

                               não era o professor

mas habita-o em inteiro silêncio

como cupins habitam e transformam em pó

a madeira por dentro

                               o chefe

                               não era o chefe do operário

mas ali cumpre o serviço a contento

incansável e secreto serviço

o das bactérias no íntimo do corpo gregário

                                                                solitário

                               o chefe

                               não era o garoto

mas com seus 16 anos de idade

já bem podíamos antevê-lo

entre os jogos da realidade

como pai e chefe de família.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 

                            para Araciaba Filho 

 

 

Mãos de marinheiro

 

 

Um homem abaixou-se

diante de mim.

 

Mas isso não quer dizer 

que ele 

fosse menor que eu.

 

Isso não quer dizer que 

o fato de estar curvado 

aos meus pés 

não o fizesse tão alto e generoso 

quanto uma árvore frondosa.

 

Com a calma de um monje 

e o gesto gratuito de um franciscano,

o homem curvou-se

‒ como se curva a verdade enigmática

de uma pedra.

 

E suas mãos de marinheiro amigo

ataram as cordas distraídas dos meus sapatos 

para que, desse jeito,

os seguros passos no caminho eleito

não dessem de cara no chão.

 

Mas às vezes acontece...