domingo, 10 de janeiro de 2021

O poema e o varal


Sim! Escrever um poema

é bem mais fácil, amiga,

do que desvendar o esquema

de barbantes varal acima.


Para montar um varal

tem que bem entender da arte

que divide o fio em igual

cujo gancho alça sua parte.


Mas para escrever um verso

basta a força plena, corpo.

De dentro sai como feto

e ganha alma, nome e rosto.


Se o varal procura regra

o poema é, após forte chuva,

úmido arfar, suor da terra

ao sol e à palavra oculta.


Diante tal impasse, senhora,

melhor mandá-lo consertar,

enquanto ainda há sol lá fora,

e aí estender versos sob o ar.

domingo, 3 de janeiro de 2021

 

O dentro e o fora: o tempo

 

 

No dia 20 de outubro

ela parou de marcar seu calendário.

 

Parou como o azul

para na gaivota.

 

Parou como o monte

para na névoa.

 

Parou como o oceano

para na geleira.

 

Parou como o infinito

para no instante.

 

O ano? – agora não importa mais.

Se era manhã ou tarde, não importa.

Se era frio ou calor, não importa.

Se desatino ou dor, não importa.

Se cristã era, não se sabe: tanto faz.

 

Foi no dia 20, mês de outubro,

bem atrás da porta, no armário

cujas roupas de lã, luto e veludo

(ou de alguma rima da infância)

que ela se fechou na lembrança

bem juntinha ao seu calendário.

 

Talvez percebesse que, daí em diante, todos os dias seriam dia 20 de outubro.

Ou de qualquer outro mês.

 

Como todas moscas nas mesmas xícaras de café ao amanhecer

como todo vento em folhas secas é silêncio de chuva e saudade

como todo morder de maçã é como pá que escava e fere a terra

como todo mato é afiadíssimo como facas apontadas para o céu

e todo céu é escudo de chumbo antes da tempestade chegar

e ainda toda impotência das buzinas na av. Presidente Vargas (teria trabalhado lá?)

                                                                                    [ao sol da tarde, a mesma de séculos

e os séculos os mesmos a cada gesto intolerante e inafiançável do homem 

                                                                                                                        [na natureza.

 

Foi assim que no dia 20 de outubro

ela parou de marcar seu calendário.

 

Mas no dia 21...

Bem... esse dia...

Esse um não existia mais.

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Os esfigmomanômetros do ser



O

relógio

         de 

         pulso


parou.


Mas não o de sol

                 o de padre

                 o de pássaro

                 o de empresário

                 o de chá sobre a mesa

                 o de imóvel tabelião no cartório

                 o de metal da pá que a terra revolve


e devolve

(agora já sem a impulsividade atroz das horas)


o de pó

e principalmente um outro

                       sem ponteiros:


o da imensidão da paz.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Dia após dia...


De manhã, lindo, o sol se levanta,

E vem a noite, a lua no fim do dia

A contar mil merdas do sacripanta.

Ainda assim, venceremos a covardia!


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Poema escroto

 

                                   e s t u p r o

                                e s t u p r o

                             e s t u p r o

                                   e s t r u p í c i o

                                   estúpido

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Celebração final


A vida é uma grandiosa festa,

que segue do grosso intestino

ao flácido cu que, sem arrimo,

libera o que tudo corre às pernas.


A vida é uma grandiosa mesa.

Lá nobilíssimos convidados

exibem jóias e engravatados

vermes jantam o que foi beleza.


Uma grandiosa alegria é a vida.

Pois da primeira até a última lauda

contida é no tecido da fralda.


E é só então na derradeira rima

que se espatifa na laje fria,

e se vê como rosa mais alta.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Sobre a idade, a ilusão e a realidade


É romântico dizer que tem 80 com cabeça de 20, ou que a criança já é esperta como adulto. São ilusões e deslocamentos porém, que em nada ajudam na tessitura do presente e do real, alheados num mundo de nuvens - que um dia despencam como a mais terrível tempestade em plena caminhada no deserto da vida.