mais nada a fazer
Agora é só esperar a tal ligação:
- Ivo, então...
Elevador 2 - Objeto do esquecimento
O sexto tinha sido apertado antes que eu.
Puto, sem querer ver ninguém,
fui planejando os bons dias.
Quando a porta abriu
uma moça,
cujos olhos se assustaram,
disse:
- Esqueci uma coisa em casa.
E desci sozinho.
Chateado, como se estivesse esquecido também:
meu rosto no espelho de casa.
Cheguei ao térreo.
Um pouco além: era o poço.
Aula
5 – Chefe
‒
Tudo bem, chefe!
respondeu
o garoto ao professor
ou
talvez quem respondesse
fosse
o vulto do seu pai
que
um dia escutara dizer ao telefone
para
o chefe apressado
que
o queria sem falta amanhã
e
depois de amanhã
e
depois do depois do amanhã
e
assim ‒ sem parar ‒ todos os dias
sem
descanso para o esqueleto
e
refresco para a alma
enquanto
o garoto
‒ na sala
simples
com sofá coberto
por um tecido puído
mesa enfeitada
com flores de plástico
desbotadas de tanto serem lavadas
piso acimentado
varrido cuidadosamente todos os dias por sua
mãe
o que não evitava porém
as lacraias as baratas os percevejos
para os quais
chinelos ordinários e vassouras piaçavas
lhes serviam de poderosas armas
sob a lâmpada equilibrada por um fio
na telha de amianto de onde se vê um furo
que um dia vazou uma bala de fuzil
e agora
em dia de sol
vaza o longínquo céu
e a lembrança de dias promissores
‒
enquanto isso o garoto
(com
seu rosto entre o azul negro neon
sob
o brilho artificial do jogo eletrônico
cuja
vitória não é nada real
e
o sal da vida o aguarda lá fora)
escutava
seu pai
marcado
fatalmente por aquele furo na telha
entre
a paciência servil e a exaustão
dizer:
‒
Tudo bem, chefe!
amanhã
chego bem cedo na firma
antes
mesmo que o sol se levante do chão.
Mas
como poderia ‒ logo ele, o professor ‒
ser
o chefe?
Onde estaria o
terno da autoridade,
a sóbria gravata que o enquadrasse
nas molduras dos palácios da glória?
Onde
estariam os sapatos de couro,
pretos,
firmes, ilustríssimos sapatos
que
lhe valessem a notória vaidade?
A carta de crédito, a felicidade
comprada
a prazo, a quitação
do sonho ‒ que não se fez realidade.
Onde estaria
tudo isso?
E
mais ainda: a certeza dos livros lidos
das
horas que sublinharam pensamentos
que
arquitetaram soluções cristalinas
que
desenharam
‒
com a certeza vã de quem joga na loteria ‒
sistemas
tão infalíveis quanto o planar de um albatroz.
Atroz
dúvida
verdade
insuspeita:
o chefe
não era o professor
mas
habita-o em inteiro silêncio
como
cupins habitam e transformam em pó
a
madeira por dentro
o chefe
não era o chefe do
operário
mas
ali cumpre o serviço a contento
incansável
e secreto serviço
o
das bactérias no íntimo do corpo gregário
solitário
o chefe
não era o garoto
mas
com seus 16 anos de idade
já
bem podíamos antevê-lo
entre
os jogos da realidade
como
pai e chefe de família.
para Araciaba
Filho
Mãos de marinheiro
Um homem abaixou-se
diante de mim.
Mas isso não quer dizer
que ele
fosse menor que eu.
Isso não quer dizer que
o fato de estar curvado
aos meus pés
não o fizesse tão alto e
generoso
quanto uma árvore frondosa.
Com a calma de um monje
e o gesto gratuito de um
franciscano,
o homem curvou-se
‒ como se curva a verdade
enigmática
de uma pedra.
E suas mãos de marinheiro amigo
ataram as cordas distraídas dos
meus sapatos
para que, desse jeito,
os seguros passos no caminho
eleito
não dessem de cara no chão.
Mas às vezes acontece...
Vestir-se
Quem diria, Emily,
que estaria agora aqui
no shopping
lendo seus versos...
Sentado na poltrona do 1° piso,
furacão invisível de desejos alheios
os quais vagueiam olhares
de súplica ou tédio
por sobre os cristais das vitrines,
quem diria... quem diria...
que hoje eu leio:
O bordo ostenta um lenço mais alegre,
A campina, uma saia escarlate;
Para não estar fora de moda,
Vou tratar de me enfeitar.
Emily,
qual a diferença
entre a sua, a minha e a solidão dos outros?
A sua veste-se de natureza.
A minha com seus versos.
A dos outros não sei...
Mas sei que há muitas madames por aí que só compram roupas de grife.
E às vezes nem usam...
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Em itálico fragmento extraído do poema "As manhãs estão mais suaves" (DICKINSON, Emily [1830-1886]. Poemas escolhidos. Tradução de Ivo Bender. São Paulo: Mediafashion, 2017 [Coleção Folha. Mulheres na literatura; v. 2]).