domingo, 7 de junho de 2026

Vizinha do mesmo andar


Ela já esperava aflita.

O porteiro acho que foi dar uma mijada.

E apertei com mais força o botão.

Desculpa desculpa...

Bom dia.

Bom dia.

Bom dia.

Entramos.

Ela foi de escada.

Eu de elevador.

Chegamos juntos, hein?

Ela deu um sorriso. 

sábado, 6 de junho de 2026

              eu ando pra mais longe de casa

pra chegar em casa 

domingo, 24 de maio de 2026

 

Aula 5 – Chefe

 

‒ Tudo bem, chefe!

respondeu o garoto ao professor

ou talvez quem respondesse

fosse o vulto do seu pai

que um dia escutara dizer ao telefone

para o chefe apressado

que o queria sem falta amanhã

e depois de amanhã

e depois do depois do amanhã

e assim ‒ sem parar ‒ todos os dias

sem descanso para o esqueleto

e refresco para a alma

enquanto o garoto

                                ‒ na sala simples

                                com sofá coberto por um tecido puído

                                mesa enfeitada com flores de plástico

                                desbotadas de tanto serem lavadas

                                piso acimentado

                                varrido cuidadosamente todos os dias por sua mãe

                                o que não evitava porém

                                as lacraias as baratas os percevejos

                                para os quais

                                chinelos ordinários e vassouras piaçavas

                                lhes serviam de poderosas armas

                                sob a lâmpada equilibrada por um fio

                                na telha de amianto de onde se vê um furo

                                que um dia vazou uma bala de fuzil

                                e agora

                                em dia de sol

                                vaza o longínquo céu

                                e a lembrança de dias promissores

‒ enquanto isso o garoto

(com seu rosto entre o azul negro neon

sob o brilho artificial do jogo eletrônico

cuja vitória não é nada real

e o sal da vida o aguarda lá fora)

escutava seu pai

marcado fatalmente por aquele furo na telha

entre a paciência servil e a exaustão

dizer:

‒ Tudo bem, chefe!

amanhã chego bem cedo na firma

antes mesmo que o sol se levante do chão.

 

Mas como poderia ‒ logo ele, o professor ‒

ser o chefe?

 

                               Onde estaria o terno da autoridade,

                                a sóbria gravata que o enquadrasse

                                nas molduras dos palácios da glória?

 

Onde estariam os sapatos de couro,

pretos, firmes, ilustríssimos sapatos

que lhe valessem a notória vaidade?

 

                                A carta de crédito, a felicidade

                                comprada a prazo, a quitação

                                do sonho ‒ que não se fez realidade.

 

                                Onde estaria tudo isso?

 

E mais ainda: a certeza dos livros lidos

das horas que sublinharam pensamentos

que arquitetaram soluções cristalinas

que desenharam

‒ com a certeza vã de quem joga na loteria ‒

sistemas tão infalíveis quanto o planar de um albatroz.

 

Atroz dúvida

verdade insuspeita:

                               o chefe

                               não era o professor

mas habita-o em inteiro silêncio

como cupins habitam e transformam em pó

a madeira por dentro

                               o chefe

                               não era o chefe do operário

mas ali cumpre o serviço a contento

incansável e secreto serviço

o das bactérias no íntimo do corpo gregário

                                                                solitário

                               o chefe

                               não era o garoto

mas com seus 16 anos de idade

já bem podíamos antevê-lo

entre os jogos da realidade

como pai e chefe de família.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 

                            para Araciaba Filho 

 

 

Mãos de marinheiro

 

 

Um homem abaixou-se

diante de mim.

 

Mas isso não quer dizer 

que ele 

fosse menor que eu.

 

Isso não quer dizer que 

o fato de estar curvado 

aos meus pés 

não o fizesse tão alto e generoso 

quanto uma árvore frondosa.

 

Com a calma de um monje 

e o gesto gratuito de um franciscano,

o homem curvou-se

‒ como se curva a verdade enigmática

de uma pedra.

 

E suas mãos de marinheiro amigo

ataram as cordas distraídas dos meus sapatos 

para que, desse jeito,

os seguros passos no caminho eleito

não dessem de cara no chão.

 

Mas às vezes acontece...

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Vestir-se


Quem diria, Emily, 

que estaria agora aqui 

no shopping 

lendo seus versos...


Sentado na poltrona do 1° piso,

furacão invisível de desejos alheios

os quais vagueiam olhares 

de súplica ou tédio

por sobre os cristais das vitrines,

quem diria... quem diria...

que hoje eu leio:

O bordo ostenta um lenço mais alegre,

A campina, uma saia escarlate;

Para não estar fora de moda,

Vou tratar de me enfeitar.


Emily, 

qual a diferença 

entre a sua, a minha e a solidão dos outros?


A sua veste-se de natureza.

A minha com seus versos.

A dos outros não sei...


Mas sei que há muitas madames por aí que só compram roupas de grife.

E às vezes nem usam...


_______________

Em itálico fragmento extraído do poema "As manhãs estão mais suaves" (DICKINSON, Emily [1830-1886]. Poemas escolhidos.  Tradução de Ivo Bender. São Paulo: Mediafashion, 2017 [Coleção Folha. Mulheres na literatura; v. 2]).


quinta-feira, 8 de maio de 2025


             para José Antonio P. Machado 

florais de bach


um sábio e sereno

cachorro

 

me

 

pousava

os olhos 

enquanto


eu


não pousava em lugar nenhum 

perplexo 

               animal 

andava 

de um lado 

                   ao outro


fumando um cigarro

atrás

         do outro


amargando uma angústia

besta


tão besta - meu deus! -

que nem sei dizer qual

sábado, 25 de janeiro de 2025

 

Complexo do Alemão

 

Tiros varavam lá fora

Kamilla só queria sair

para comprar um pão

 

Kamilla só queria sair

de casa e dali

para  (sempre poder)

comprar seu pão

 

Bala perdida,

o coração de ferro

bate

na pele

de cal e argila

:

café com pão

café com pão

café com pão

 

Kamilla só queria sair

para comprar um pão

 

Fresco,

como o ar da manhã,

               que ainda não endureceu

               sob o metal do meio-dia