Só depois de um conhaque
Eu preferi escrever aqui
antes de abrir este diário.
Melhor assim. Saber da verdade
é matar uma parte de mim.
Ao rés do chão: a crítica literária atual
Outro dia entrei numa livraria onde fica o cinema na praia de Botafogo e a estante de crítica literária, que já ficava ao fundo, foi submetida agora a uma prateleira rente ao chão, difícil até de visualizar. Mesmo já imaginando, perguntei para moça por que colocaram naquele lugar. Ela, educadamente ou com algum pudor, não respondeu com palavras, mas fez aquele gesto que adivinhamos: "Porque não vende, meu senhor".
E por que não vende? Creio que porque a crítica literária está cada vez mais diluída em textos de poucas páginas. O que resta são antologias escritas e organizadas por professores universitários. Sempre às pressas para obter boa avaliação no CAPES ou bolsa de produtividade de pesquisa (CNPq). Por isso, infelizmente, como salienta José Luís Jobim, "(...) livros de grande qualidade, mas que levam uma década para serem produzidos, como a Formação da Literatura brasileira de Antonio Candido, por exemplo, dificilmente são ou serão escritos hoje no país" (p. 33).
Segundo Jobim (idem), isso não acontece apenas no Brasil e está inserido numa máxima norte-americana: "publique ou morra". Desse modo, a crítica literária atual parece até, com o perdão da piada, classificados de jornais. Observa-se antologias com inúmeros artigos - às vezes chegando ao número de vinte ou mais - e apenas com 3, 4, 5 páginas (com sorte terá 20).
Apesar de apresentarem propostas muitas vezes interessantes, não há profundidade, não se perscruta o assunto em todos os ângulos, não se penetra no mundo do texto. Não se é analítico. Mesmo uma crítica impressionista da primeira metade do século XX possuía mais embasamento e conteúdo. Hoje em dia, pode-se citar muitos filósofos, psicanalistas, historiadores e xamanistas, mas não lhes explicam o pensamento (o leitor que se vire). São artigos rasteiros, superficiais e mal conseguimos deles ter uma reflexão, penetrar no íntimo do texto crítico - que também pode ser uma opção de prazer intelectual - e, muito menos ainda, do escritor em questão. Já me ocorreu algumas vezes estar lendo uns desses artigos e ter a impressão de que não foi terminado. Parece até que o ensaísta saiu para fritar ovos e não voltou.
O leitor universitário, que quer estudar um aspecto de Graciliano Ramos, por exemplo, dificilmente vai comprar um livro desses para ler apenas um artigo, já que muitas vezes até a lista de autores e temas são diversificados. Esse leitor vai buscá-lo na internet, onde é fácil achar o mesmo texto. E mesmo o leitor que busca ensaios por mera fruição não vai buscar esses livros, porque o prazer de leitura, muitas vezes se constrói lentamente, com idas e vindas, com profundidade de pensamento, com descobertas que se avolumam e se amalgamam ao raciocínio, ao corpo e à imaginação. Aliás, lembra-se da madeleine de Proust?... Um prazer de pura lembrança que paulatinamente cresce e nos possui. Pois então, ele também teve dificuldade de publicar devido ao enorme tamanho da obra. Com a crítica, cujos meandros são reflexivos - mas também sensoriais -, não é muito diferente.
Ao ler este texto, alguém deve estar se questionando se isso é possível em tempos líquidos. Ou seja, em tempos onde o próprio tempo tem pressa e certo medo do tempo. Em relação a esses desconfiados, que de maneira nenhuma estão errados, tão imbuídos estão com seus múltiplos afazeres, a resposta é sucinta: mais vale um texto na mão do que dois voando.
É nesse sentido que Antonio Candido, por mais que alguns o julguem "anacrônico", é vendido e lido até hoje. Seja por especialistas ou não; seja para pesquisa ou por puro deleite; seja por poetas e não poetas. Na Formação da literatura brasileira as análises são detidas, sentimos a atmosfera da época, seu cheiro, sua cor, seus dramas - concordem ou não com os conceitos levantados pelo autor. O escritor de crítica deve fazer - tal como boa parte de filósofos, mas sem misturar os papéis - uma análise mais detida e demorada, levantando, inclusive, todos os contraditórios. Só indo ao "ponto G" do texto, ao seu cerne ontológico que encontraremos o verdadeiro desfrute do livro. Talvez seja isso de que necessita atualmente a crítica literária para alçar os altos lugares das prateleiras.
REFERÊNCIA:
JOBIM, José Luís. A crítica literária e os críticos criadores no Brasil. Rio de Janeiro: Caetés: EDUERJ, 2012.
Ivo de Souza
(Rio, 9/9/2026)
Elevador 2 - Objeto do esquecimento
O sexto tinha sido apertado antes que eu.
Puto, sem querer ver ninguém,
fui planejando os bons dias.
Quando a porta abriu
uma moça,
cujos olhos se assustaram,
disse:
- Esqueci uma coisa em casa.
E desci sozinho.
Chateado, como se estivesse esquecido também:
meu rosto no espelho de casa.
Cheguei ao térreo.
Um pouco além: era o poço.
Aula
5 – Chefe
‒
Tudo bem, chefe!
respondeu
o garoto ao professor
ou
talvez quem respondesse
fosse
o vulto do seu pai
que
um dia escutara dizer ao telefone
para
o chefe apressado
que
o queria sem falta amanhã
e
depois de amanhã
e
depois do depois do amanhã
e
assim ‒ sem parar ‒ todos os dias
sem
descanso para o esqueleto
e
refresco para a alma
enquanto
o garoto
‒ na sala
simples
com sofá coberto
por um tecido puído
mesa enfeitada
com flores de plástico
desbotadas de tanto serem lavadas
piso acimentado
varrido cuidadosamente todos os dias por sua
mãe
o que não evitava porém
as lacraias as baratas os percevejos
para os quais
chinelos ordinários e vassouras piaçavas
lhes serviam de poderosas armas
sob a lâmpada equilibrada por um fio
na telha de amianto de onde se vê um furo
que um dia vazou uma bala de fuzil
e agora
em dia de sol
vaza o longínquo céu
e a lembrança de dias promissores
‒
enquanto isso o garoto
(com
seu rosto entre o azul negro neon
sob
o brilho artificial do jogo eletrônico
cuja
vitória não é nada real
e
o sal da vida o aguarda lá fora)
escutava
seu pai
marcado
fatalmente por aquele furo na telha
entre
a paciência servil e a exaustão
dizer:
‒
Tudo bem, chefe!
amanhã
chego bem cedo na firma
antes
mesmo que o sol se levante do chão.
Mas
como poderia ‒ logo ele, o professor ‒
ser
o chefe?
Onde estaria o
terno da autoridade,
a sóbria gravata que o enquadrasse
nas molduras dos palácios da glória?
Onde
estariam os sapatos de couro,
pretos,
firmes, ilustríssimos sapatos
que
lhe valessem a notória vaidade?
A carta de crédito, a felicidade
comprada
a prazo, a quitação
do sonho ‒ que não se fez realidade.
Onde estaria
tudo isso?
E
mais ainda: a certeza dos livros lidos
das
horas que sublinharam pensamentos
que
arquitetaram soluções cristalinas
que
desenharam
‒
com a certeza vã de quem joga na loteria ‒
sistemas
tão infalíveis quanto o planar de um albatroz.
Atroz
dúvida
verdade
insuspeita:
o chefe
não era o professor
mas
habita-o em inteiro silêncio
como
cupins habitam e transformam em pó
a
madeira por dentro
o chefe
não era o chefe do
operário
mas
ali cumpre o serviço a contento
incansável
e secreto serviço
o
das bactérias no íntimo do corpo gregário
solitário
o chefe
não era o garoto
mas
com seus 16 anos de idade
já
bem podíamos antevê-lo
entre
os jogos da realidade
como
pai e chefe de família.