sábado, 7 de fevereiro de 2026


                              Para Claudia Regina Ribeiro 


Vestir-se


Quem diria, Emily, 

que estaria agora aqui 

no shopping 

lendo seus versos...


Sentado na poltrona do 1° piso,

furacão invisível de desejos alheios

os quais vagueiam olhares 

de súplica ou tédio

por sobre os cristais das vitrines,

quem diria... quem diria...

que hoje eu leio:

O bordo ostenta um lenço mais alegre,

A campina, uma saia escarlate;

Para não estar fora de moda,

Vou tratar de me enfeitar.


Emily, 

qual a diferença 

entre a sua, a minha e a solidão dos outros?


A sua veste-se de natureza.

A minha com seus versos.

A dos outros não sei...


Mas sei que há muitas madames por aí que só compram roupas de grife.

E às vezes nem usam...


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Em itálico fragmento extraído do poema "As manhãs estão mais suaves" (DICKINSON, Emily [1830-1886]. Poemas escolhidos.  Tradução de Ivo Bender. São Paulo: Mediafashion, 2017 [Coleção Folha. Mulheres na literatura; v. 2]).


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