Aula
5 – Chefe
‒
Tudo bem, chefe!
respondeu
o garoto ao professor
ou
talvez quem respondesse
fosse
o vulto do seu pai
que
um dia escutara dizer ao telefone
para
o chefe apressado
que
o queria sem falta amanhã
e
depois de amanhã
e
depois do depois do amanhã
e
assim ‒ sem parar ‒ todos os dias
sem
descanso para o esqueleto
e
refresco para a alma
enquanto
o garoto
‒ na sala
simples
com sofá coberto
por um tecido puído
mesa enfeitada
com flores de plástico
desbotadas de tanto serem lavadas
piso acimentado
varrido cuidadosamente todos os dias por sua
mãe
o que não evitava porém
as lacraias as baratas os percevejos
para os quais
chinelos ordinários e vassouras piaçavas
lhes serviam de poderosas armas
sob a lâmpada equilibrada por um fio
na telha de amianto de onde se vê um furo
que um dia vazou uma bala de fuzil
e agora
em dia de sol
vaza o longínquo céu
e a lembrança de dias promissores
‒
enquanto isso o garoto
(com
seu rosto entre o azul negro neon
sob
o brilho artificial do jogo eletrônico
cuja
vitória não é nada real
e
o sal da vida o aguarda lá fora)
escutava
seu pai
marcado
fatalmente por aquele furo na telha
entre
a paciência servil e a exaustão
dizer:
‒
Tudo bem, chefe!
amanhã
chego bem cedo na firma
antes
mesmo que o sol se levante do chão.
Mas
como poderia ‒ logo ele, o professor ‒
ser
o chefe?
Onde estaria o
terno da autoridade,
a sóbria gravata que lhe enquadrasse
nas molduras dos palácios da glória?
Onde
estariam os sapatos de couro,
pretos,
firmes, ilustríssimos sapatos
que
lhe valessem a notória vaidade?
A carta de crédito, a felicidade
comprada
a prazo, a quitação
do sonho ‒ que não se fez realidade.
Onde estaria
tudo isso?
E
mais ainda: a certeza dos livros lidos
das
horas que sublinharam pensamentos
que
arquitetaram soluções cristalinas
que
desenharam
‒
com a certeza vã de quem joga na loteria ‒
sistemas
tão infalíveis quanto o planar de um albatroz.
Atroz
dúvida
verdade
insuspeita:
o chefe
não era o professor
mas
habita-o em inteiro silêncio
como
cupins habitam e transformam em pó
a
madeira por dentro
o chefe
não era o chefe do
operário
mas
ali cumpre o serviço a contento
incansável
e secreto serviço
o
das bactérias no íntimo do corpo solitário
o chefe
não era o garoto
mas
com seus 16 anos de idade
já
bem podíamos antevê-lo
entre
os jogos da realidade
como
pai e chefe de família.