segunda-feira, 6 de março de 2023

O inadimplente 


Não adianta de nada, Amigo,

suas leituras de Proust,

se em suas visitas ao passado,

você, além de não se encontrar,

não assume os compromissos

sob o sol que calcina o nosso instante.


Machado estaria rindo de você,

se soubesse que suas leituras

são apenas álbuns de figurinhas,

bibelôs arrumados sobre prateleiras,

retórica de gabinete, 

comprometimento com o ócio,

tempo gasto para nada.

Imaginário oco. Futilidade.


Não adianta achar que vai encontrar

a realidade do nordestino imigrante

em Fabiano, em Morte e Vida Severina,

ou em qualquer outro que fale da dura lida,

se você não tem tatos no coração,

se não ultrapassa a cerca do seu quintal,

e sequer lava a própria louça, 

restos do seu banquete solitário.


Por isso, Amigo,

se tem por hábito ser caloteiro das Artes,

não o será - mas não  mesmo! - 

da, ainda que má,

            da própria consciência.


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