quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 

                            para Araciaba Filho 

 

 

Mãos de marinheiro

 

 

Um homem abaixou-se

diante de mim.

 

Mas isso não quer dizer 

que ele 

fosse menor que eu.

 

Isso não quer dizer que 

o fato de estar curvado 

aos meus pés 

não o fizesse tão alto e generoso 

quanto uma árvore frondosa.

 

Com a calma de um monje 

e o gesto gratuito de um franciscano,

o homem curvou-se

‒ como se curva a verdade enigmática

de uma pedra.

 

E suas mãos de marinheiro amigo

ataram as cordas distraídas dos meus sapatos 

para que, desse jeito,

os seguros passos no caminho eleito

não dessem de cara no chão.

 

Mas às vezes acontece...

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Vestir-se


Quem diria, Emily, 

que estaria agora aqui 

no shopping 

lendo seus versos...


Sentado na poltrona do 1° piso,

furacão invisível de desejos alheios

os quais vagueiam olhares 

de súplica ou tédio

por sobre os cristais das vitrines,

quem diria... quem diria...

que hoje eu leio:

O bordo ostenta um lenço mais alegre,

A campina, uma saia escarlate;

Para não estar fora de moda,

Vou tratar de me enfeitar.


Emily, 

qual a diferença 

entre a sua, a minha e a solidão dos outros?


A sua veste-se de natureza.

A minha com seus versos.

A dos outros não sei...


Mas sei que há muitas madames por aí que só compram roupas de grife.

E às vezes nem usam...


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Em itálico fragmento extraído do poema "As manhãs estão mais suaves" (DICKINSON, Emily [1830-1886]. Poemas escolhidos.  Tradução de Ivo Bender. São Paulo: Mediafashion, 2017 [Coleção Folha. Mulheres na literatura; v. 2]).