Noite e dia
Depois da lasciva noite com bocas
loucas. Entorpecidas por mais vida.
E da latência quente das veias na úmida
cavidade do útero, da rima rouca.
Depois da lacunar noite dormente
e ausente. E da satírica união: carne
tênue e clara com tez que arde;
e explode esperma na aurora silente...
(As horas se apagam no pulsar do sono
no segredo quieto e inviolável do corpo
na lembrança esquecida do coito.)
Depois dos cus e uis da noite, pronto!
Recomposta, a face se faz metálica.
Em sua armadura sóbria, disfarça.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
BR 116
O sol despertava rebanhos de nuvens
leves e macias, tão macias...
que é injusto demais chamá-las assim.
Eram ovelhas como se ouve dizer por aí.
As ovelhas ou algodões
ou qualquer criação de Deus ou das crianças
bocejavam no leito azul do céu.
Ao longe,
os montes de onde se levantavam
e deixavam orvalhos de saudade
nos galhos, nas folhagens, no pasto...
No manto de veludo verde e velado.
Como sopros de meias no assoalho, deslizavam
na impalpável superfície do ar,
que tocava infinitos violinos
e com seus dedos finos e invisíveis
acariciava claras formas
e com elas se confundia
numa alquimia livre e líquida
sem corpo ou copo
que as pudesse moldar.
Seus rumos?...
A meteorologia ainda não previu.
Nem o tocador de rebanhos
(que bem o sabemos, basta-lhe sentir).
O rumo só se faz rumo
quando sem saber
já sabemos para onde ir.
Aí aconteceu que, no Km 142,
meus olhos caíram do alto,
rolaram
como rodas de plástico
na tangência fugaz do asfalto.
Rumo aos compromissos inadiáveis
que infla
e se esvai, dia a dia...
O sol despertava rebanhos de nuvens
leves e macias, tão macias...
que é injusto demais chamá-las assim.
Eram ovelhas como se ouve dizer por aí.
As ovelhas ou algodões
ou qualquer criação de Deus ou das crianças
bocejavam no leito azul do céu.
Ao longe,
os montes de onde se levantavam
e deixavam orvalhos de saudade
nos galhos, nas folhagens, no pasto...
No manto de veludo verde e velado.
Como sopros de meias no assoalho, deslizavam
na impalpável superfície do ar,
que tocava infinitos violinos
e com seus dedos finos e invisíveis
acariciava claras formas
e com elas se confundia
numa alquimia livre e líquida
sem corpo ou copo
que as pudesse moldar.
Seus rumos?...
A meteorologia ainda não previu.
Nem o tocador de rebanhos
(que bem o sabemos, basta-lhe sentir).
O rumo só se faz rumo
quando sem saber
já sabemos para onde ir.
Aí aconteceu que, no Km 142,
meus olhos caíram do alto,
rolaram
como rodas de plástico
na tangência fugaz do asfalto.
Rumo aos compromissos inadiáveis
que infla
e se esvai, dia a dia...
sábado, 9 de junho de 2012
Thomas Buddenbrook
"...repousamos sobre a vasta simplicidade das coisas exteriores quando estamos cansados pela confusão das íntimas."
Thomas Mann
Agora seu olhar vaga na liquidez inóspita do infinito,
vaga e já sem pressa
languidamente se dispersa como ondas de dúvida e interrogação.
O nó da gravata.
Os compromissos inadiáveis.
Os jantares sem iguais, a Sala das Paisasens, lustres e cristais,
a feição tensa e irreparável dos músculos.
A ambição e - quem diria - até a inabalável certeza do mundo: Deus.
Sim, tudo isso se perfila
(quando ter era ser)
na inócua fragilidade da vida.
Mas o ser não mais tem.
O ser é sozinho com o mundo inteiro, Tom.
O ser tem a vida que não te sustenta.
A vida do nó, dos compromissos, das Paisasens,
dos jantares, dos cristais e lustrosos músculos insondáveis
vida não era, Tom.
E agora?...
Agora a lógica da hora se liquefaz,
como se liquefaz as pedras das montanhas,
o outono no inverno,
as pétalas do tempo.
Sim, Tom, enquanto há tempo contemple-se.
E se tiver dúvidas demais
vasculhe seu íntimo amor
naquela singela monotonia
(e imensa) simplicidade do mar.
"...repousamos sobre a vasta simplicidade das coisas exteriores quando estamos cansados pela confusão das íntimas."
Thomas Mann
Agora seu olhar vaga na liquidez inóspita do infinito,
vaga e já sem pressa
languidamente se dispersa como ondas de dúvida e interrogação.
O nó da gravata.
Os compromissos inadiáveis.
Os jantares sem iguais, a Sala das Paisasens, lustres e cristais,
a feição tensa e irreparável dos músculos.
A ambição e - quem diria - até a inabalável certeza do mundo: Deus.
Sim, tudo isso se perfila
(quando ter era ser)
na inócua fragilidade da vida.
Mas o ser não mais tem.
O ser é sozinho com o mundo inteiro, Tom.
O ser tem a vida que não te sustenta.
A vida do nó, dos compromissos, das Paisasens,
dos jantares, dos cristais e lustrosos músculos insondáveis
vida não era, Tom.
E agora?...
Agora a lógica da hora se liquefaz,
como se liquefaz as pedras das montanhas,
o outono no inverno,
as pétalas do tempo.
Sim, Tom, enquanto há tempo contemple-se.
E se tiver dúvidas demais
vasculhe seu íntimo amor
naquela singela monotonia
(e imensa) simplicidade do mar.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
sábado, 3 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
Crônicas que contam
Não é tarefa fácil tratar com humor e elegância certos eventos da vida. E tais incidentes perpassam cotidianamente por toda sociedade sem ao menos notarmos. Entretanto, Catarina Cunha capta-os com lente de aumento e o banal torna-se inusitado; o dramático, irônico – o senso comum poetiza-se.
É assim com Paulinho, de Pipocas no asfalto, que “nasceu numa família como qualquer outra”. Mas atravessando “a rua destrambelhado atrás da bola fugidia” choca-se com uma carroça de pipoca. A partir daí o choque maior se dá entre crença popular e ciência, pois tornara-se “um médium acidental” enquanto estava sob os cuidados domésticos, enquanto não o regulava o controle científico.
Ela conta também o pré-julgamento social sofrido por Samuel; o conformismo de Antenor, que vê anos de trabalho desmoronarem; a metáfora do piano testemunhando um desenlace amoroso; a conciliação da forma de narrar – assindética e mecânica – com a rotina de um desempregado; o simbolismo da água inundando a profundidade do ser. E, vale citar, a bela história de Esmeraldina (Ofício dos ossos) que só tendo herdado “um cachimbo fedido de fumo de rolo e uma dívida no botequim” tem que assumir árduas tarefas.
Por isso as crônicas desse livro se transfiguram em verdadeiros contos, devido ao tratamento singular e intenso dado aos acontecimentos. E utiliza-se perfeitamente da irreverência para tirá-los de uma massa uniforme. Tal como já o fizera no festejado Deu vaca.
Confira alguns de seus textos no blog
www.gavetaverde.blogspot.com
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