segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A simplicidade das coisas


Quanto tempo e páginas
já não foram desperdiçadas
para definir
a essência de uma flor?

Mas o tênue tecido
de suas pétalas
(não tenhamos medo)
nada mais exige
que uma simples palavra:
amor.



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Noite e dia


Depois da lasciva noite com bocas
loucas. Entorpecidas por mais vida.
E da latência quente das veias na úmida
cavidade do útero, da rima rouca.

Depois da lacunar noite dormente
e ausente. E da satírica união: carne
tênue e clara com tez que arde;
e explode esperma na aurora silente...

(As horas se apagam no pulsar do sono
no segredo quieto e inviolável do corpo
na lembrança esquecida do coito.)

Depois dos cus e uis da noite, pronto!
Recomposta, a face se faz metálica.
Em sua armadura sóbria, disfarça.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Antes de ficar sozinho,
eu não tinha todas as pessoas.
As tenho só agora.
Inteiramente só.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

BR 116


O sol despertava rebanhos de nuvens
leves e macias, tão macias...
que é injusto demais chamá-las assim.
Eram ovelhas como se ouve dizer por aí.
As ovelhas ou algodões
ou qualquer criação de Deus ou das crianças
bocejavam no leito azul do céu.

Ao longe,
os montes de onde se levantavam
e deixavam orvalhos de saudade
nos galhos, nas folhagens, no pasto...
No manto de veludo verde e velado.

Como sopros de meias no assoalho, deslizavam
na impalpável superfície do ar,
que tocava infinitos violinos
e com seus dedos finos e invisíveis
acariciava claras formas
e com elas se confundia
numa alquimia livre e líquida
sem corpo ou copo
que as pudesse moldar.

Seus rumos?...
A meteorologia ainda não previu.
Nem o tocador de rebanhos
(que bem o sabemos, basta-lhe sentir).

O rumo só se faz rumo
quando sem saber
já sabemos para onde ir.


Aí aconteceu que, no Km 142,
meus olhos caíram do alto,
rolaram
como rodas de plástico
na tangência fugaz do asfalto.
Rumo aos compromissos inadiáveis
que infla
e se esvai, dia a dia...

sábado, 9 de junho de 2012

Thomas Buddenbrook


"...repousamos sobre a vasta simplicidade das coisas exteriores quando estamos cansados pela confusão das íntimas."
Thomas Mann


Agora seu olhar vaga na liquidez inóspita do infinito,
vaga e já sem pressa
languidamente se dispersa como ondas de dúvida e interrogação.

O nó da gravata.
Os compromissos inadiáveis.
Os jantares sem iguais, a Sala das Paisasens, lustres e cristais,
a feição tensa e irreparável dos músculos.
A ambição e - quem diria - até a inabalável certeza do mundo: Deus.
Sim, tudo isso se perfila
(quando ter era ser)
na inócua fragilidade da vida.

Mas o ser não mais tem.
O ser é sozinho com o mundo inteiro, Tom.
O ser tem a vida que não te sustenta.
A vida do nó, dos compromissos, das Paisasens,
dos jantares, dos cristais e lustrosos músculos insondáveis
vida não era, Tom.

E agora?...
Agora a lógica da hora se liquefaz,
como se liquefaz as pedras das montanhas,
o outono no inverno,
as pétalas do tempo.

Sim, Tom, enquanto há tempo contemple-se.
E se tiver dúvidas demais
vasculhe seu íntimo amor
naquela singela monotonia
(e imensa) simplicidade do mar.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pólen

 

A abelha do amor
poliniza seu FERRÃO
no jardim florido
(e por demais translúdico)
da flora do amor da moça dourada.

sábado, 3 de março de 2012

REDUC - RJ

Num plano vácuo
sem ar
nem esperança
verticais e silenciosas chamas
competem numa lentidão desenfreada
com o céu, sol e ar.