sábado, 22 de outubro de 2016


Passeio perdido

Trabalhei de domingo a sexta feito um burro. Saio na rua hoje pra relaxar e me perguntam:
- Não trabalha mais não?

É. A gente nunca foge inteiramente das nossas obrigações. Pois certas perguntas dão um trabalho danado para responder.
- Não - disse já meio desanimado e bufando.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016


Pragmática

      Minha mulher pediu um dinheiro. Peguei o que tinha na carteira.
      - Vou dar minha caminhada, nos vemos mais tarde.
      A cumplicidade é o melhor que existe no amor. Não queria encontrar ninguém. Mas logo veio o Ostaldo com aquela cara de sempre. Sempre achei que as pessoas com nomes estranhos têm que se superar. Ostaldo era dono de uma construtora.
      - Oi. Você tá com uma cara boa!
      Fui cortez. Estou com uma cara boa. Sim, é verdade. Atravessei as pistas pela passarela, olhando a velocidade dos carros. Cheguei na beira-mar e andei no asfalto. Passou um adolescente ruivo, gordo e meio que envergonhado; depois uma senhora, que abria os braços como quem achasse o mistério da vida; um atleta forte, mas sem competidor; um gay se alegrava com tudo; uma frágil mulher, que só figurava o ambiente; e outra de narizinho em pé, que não era nada sem o marido.
Ultimamente tenho adquirido hábitos diurnos. Deixei os amigos da noite, a noite não leva a nada, só à reclamação da sua mulher. Acho que é por isso que dizem que ando bem. Mas mudar uma rotina não é nada fácil. São pessoas diferentes, conversas, gestos, gostos, tudo é diferente. Você tem que se adaptar rápido, antes que percebam.

     Segui pela orla, passei pela pista de aeromodelo; do outro lado minha lancha estava ancorada. Cumprimentei o idiota do vigia, que logo ficou atento quando me viu. Segui. Passei pelo monumento dos pracinhas, pelo MAM, pelo Boqueirão.
     Hoje em dia não se deixa ir até a cabeceira da pista do aeroporto. Ia quando era moleque e pobre com meu pai ver os aviões decolarem. Mas não tenho saudade disso. Passado é passado. E a gente pode encontrar coisas melhores. Bem, agora fizeram antes da cabeceira uma espécie de píer, feito pedra e terra, que se estende nas água calmas da Marina da Glória por uns 100 metros, dando uma visão privilegiada, pois se vê monumentalmente o Pão de Açúcar bem à frente e, à direita, barcos ancorados. No entanto, pela esquerda, uma imensa turbulência de águas, devido ao encontro de correntezas no périplo onde se estende o final da pista do aeroporto.

     Lá na ponta uma mulher de seus 30 anos distraía-se com as águas. Era bonita. Seus cabelos soltos e tingidos vagavam junto ao destino do vento. Quando me viu chegar, fingiu elegantemente. Ficou mais bonita ainda.
    - Belo dia!
    Virou para o lado como quem não quisesse conversa, mas disse vagamente:
    - É...
    - Sim. Um dia bonito. Até aquelas pequenas nuvens se afastaram do Pão de Açúcar para aquele belo casal, que tirou o dia para passear, ver a gente lá de cima. Tá vendo?!
    Ela riu, olhou-me nos olhos, e se encabulou.
    - Você já pescou? Disse pra dizer alguma coisa.
    - Ia sempre com meu marido, fiz tudo por ele. Fiz... mas...
    - Onde?
    - Angra.
    - Sei...
    - Mas ele vai ver!...
    - Calma, calma. A vida é assim mesmo. Você é bonita... Olha... Quando te vi lá de longe, mais longe do que aquele casal lá de cima imagina... E vi seus cabelos como ondas de mar..., e seu olhar, seu olhar lá naquele monte...
    Ela me puxou pela nuca com finos mas determinados dedos e me beijou. Beijei-a também. E peguei nas ondas dos seus cabelos, clareados artificialmente. Puxei. Ela gostou. Puxei com toda força que pude. - Ai! - ela entendeu. Arrastei seus cabelos até as pedras, onde as ondas batiam. E tudo acabou.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Volta pra casa na Central do Brasil

             Posicionei-me bem na frente da porta com um monte de gente atrás e dos lados, todos com o mesmo objetivo: lugar pra sentar. Mas já tinha experiência. Abrindo a porta a manada correu. E fui uns dos primeiros a ter assento. Fiquei olhando distraidamente as popozudas do Face. Foi quando apareceu uma senhora em pé. Ao lado um homem fingia dormir. Arrisquei, sem que ela visse que a tinha visto, os olhos para os seus. Disfarcei e tentei me concentrar determinadamente no Face. E ela fragilmente se jogava para frente e para trás, encostando nas minhas pernas as suas, com o balanço do trem. Os braços eram como se fossem ramagens secas, de árvores que se dependuram nas alças do tempo; as rugas do pescoço pareciam leito - de seco rio -, e se escondiam pelas golas de um simples e desbotado vestido de flores amarelas; já nas canelas viam-se de novo as rugas, interrompidas em toda parte por inchaços cardiovasculares azuis. Pensei na minha mãe, na cadeira de rodas que tinha que comprar pra ela: - Quer sentar?

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Insônia


O diálogo branco da luz,
das sombras nas paredes,
do assoprar das cortinas
e da poeira sobre os móveis.

(O diálogo do dia anterior,
do fortuito encontro na rua,
de algo que nos disseram,
mas teimamos não entender.)

A franqueza dos segundos,
que vai pela pia da cozinha,
o virar insone da cama,
a presença, vulto e estalo.

O arrastar dos passos no assoalho,
a cegueira do inseto na lâmpada
e seu suicídio no copo d'água.
O levantar-se para trocá-la.

O voltar e deitar-se de novo,
o teto com sua plena nudez.
(A certeza do próximo encontro
na rua. Mas antes, o sono.)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Diálogo barroco

Percebendo os tempos difíceis do reino, Pe. Antonio Vieira aconselhou: "Gregório, não quer ficar um tempo na cela, não? Pra descansar. Olha, as coisas não são mais como antigamente, a Santa Sé tá dando uma dura danada." No que ele respondeu: "Eu!? Falem o que quiser, que falar também sei. Mas minha mulata não deixo aqui sozinha não. Além disso, tá cheio de rapina por aí!" Assim, vendo que a Palavra ali não ia frutificar mesmo, Vieira aquiesceu: "Tudo bem, Gregório, que Deus apazigue seu espírito contraditório, feito de luz, poesia, e de Matos e Guerra."

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Problemática

Ter problemas
não tem problema nenhum.
O problema é não ter
problema algum.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Uma ligação

- A dona Henriqueta está?
- Não.
(Barulhos de escritório e vozes atrás.)
- Mas a dona Henriqueta...
- Não, ela não está.
- ...
- Tá viajando, sou o filho dela.
- Como?!... Mas é que...
(Muito falatório no fundo.)
- Sim, diga...
- Hoje é o aniversário dela e nós... eu... a gente da... queria pedir, ou melhor, desejar feliz...
- Sim. Comunicar-lhe-ei isso. Obrigado.
- O quê?
- Obrigado.
- Ah... sim sim senhor...
(A ligação é interrompida.)