Ficha
Depois de tantos anos de desrespeito, o cara olha pro espelho e diz: - Será que ninguém vê isso, meu Deus?!
O espelho elegantemente não diz nada. Só faz refletir num silêncio respeitoso, porém dramático, o que sempre viu.
domingo, 30 de julho de 2017
sexta-feira, 7 de julho de 2017
Inveja
Já atrasado pra ir trabalhar e com míseros 3 reais sobrando, parei pra comer um cachorro quente e guaravita. Um mendigo alto, branco, cabelos compridos e olhos verdes me pediu para pagar um, que tava com fome e tal. Irritado falei que não tinha. Mas logo à frente, em outra carrocinha, uma moça simpática e bonita deu pra ele. Engoli o último pedaço, olhei o relógio e bufei já com passos apressados e paradoxais: - Esse infeliz ainda é mais feliz do que minha infeliz felicidade.
Já atrasado pra ir trabalhar e com míseros 3 reais sobrando, parei pra comer um cachorro quente e guaravita. Um mendigo alto, branco, cabelos compridos e olhos verdes me pediu para pagar um, que tava com fome e tal. Irritado falei que não tinha. Mas logo à frente, em outra carrocinha, uma moça simpática e bonita deu pra ele. Engoli o último pedaço, olhei o relógio e bufei já com passos apressados e paradoxais: - Esse infeliz ainda é mais feliz do que minha infeliz felicidade.
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Poema da dor
Os poetas não são uns fingidores.
Sentem verdadeiramente dor de verdade.
Acredite ou não,
eles têm problemas clínicos seriíssimos.
Que os fazem parar
(e as enfermeiras de plantão bem o sabem)
no Sousa Aguiar
com uma puta dor de coluna.
Ou coração.
Ou um último bilhete no bolso.
Às pressas, racunhado.
Ou sem mesmo nada. Porque
nessas horas
quem é que vai pensar escrever alguma coisa?
Os poetas não são uns fingidores.
Sentem verdadeiramente dor de verdade.
Acredite ou não,
eles têm problemas clínicos seriíssimos.
Que os fazem parar
(e as enfermeiras de plantão bem o sabem)
no Sousa Aguiar
com uma puta dor de coluna.
Ou coração.
Ou um último bilhete no bolso.
Às pressas, racunhado.
Ou sem mesmo nada. Porque
nessas horas
quem é que vai pensar escrever alguma coisa?
sábado, 24 de junho de 2017
quinta-feira, 15 de junho de 2017
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Ex
Depois da alegria de umas cerjevas a mais, um amigo de anos disse que, naquela época, comia minha ex-mulher.
Fechei a cara, fingi que não tinha escutado, olhei pros lados, ignorando mesmo. Aliás, ela me ensinara isso! E me fiz de desentendido.
- Mas o jogo de ontem, hein?
E como insistia na vitória, peguei, num violento impulso, o casco de cerveja já vazio no pé sujo, que já tava pra fechar. Peguei com fome e sede. Atravessei os olhos dele sem orientação, sem medir passado e consequências. Como quem corta um pedaço de pêssego ou carne fresca, disse:
- Vamos pegar mais uma? Ou por essa fica?...
Depois da alegria de umas cerjevas a mais, um amigo de anos disse que, naquela época, comia minha ex-mulher.
Fechei a cara, fingi que não tinha escutado, olhei pros lados, ignorando mesmo. Aliás, ela me ensinara isso! E me fiz de desentendido.
- Mas o jogo de ontem, hein?
E como insistia na vitória, peguei, num violento impulso, o casco de cerveja já vazio no pé sujo, que já tava pra fechar. Peguei com fome e sede. Atravessei os olhos dele sem orientação, sem medir passado e consequências. Como quem corta um pedaço de pêssego ou carne fresca, disse:
- Vamos pegar mais uma? Ou por essa fica?...
segunda-feira, 5 de junho de 2017
Um dia de domingo
Chego em casa.
Penso nos amigos
e tenho imensa ternura.
O cara que se separou, o do câncer,
o namoradeiro que não imaginava se casar
e o que não se casou por levar muito à sério a vida,
a história mal contada, e o da gafe ingênua e honesta.
- Ontem nasceu a última girafa. E era anã, disseram.
E todos rimos.
Rimos, sem nomes importantes
sem profissões duras
sem carros espetaculares
e namoradas-maquiagens
sem distinção ou discussão
de riso ou classe social.
Ríamos só.
Penso nos meus amigos
com a mesma ternura
que dedicaria aos outros.
Que não viram a girafa anã.
Mas vão ver
- quando estiverem extintas.
Chego em casa.
Penso nos amigos
e tenho imensa ternura.
O cara que se separou, o do câncer,
o namoradeiro que não imaginava se casar
e o que não se casou por levar muito à sério a vida,
a história mal contada, e o da gafe ingênua e honesta.
- Ontem nasceu a última girafa. E era anã, disseram.
E todos rimos.
Rimos, sem nomes importantes
sem profissões duras
sem carros espetaculares
e namoradas-maquiagens
sem distinção ou discussão
de riso ou classe social.
Ríamos só.
Penso nos meus amigos
com a mesma ternura
que dedicaria aos outros.
Que não viram a girafa anã.
Mas vão ver
- quando estiverem extintas.
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