Novelo
O desenrolar
do novelo
desbravou mares
até se deitar
com o horizonte
e dormir
em paz
onde a terra
encontra
o ar
terça-feira, 17 de abril de 2018
quinta-feira, 8 de março de 2018
Quem banca?
À certa hora da noite abafada, um carro de vidro escuro encosta. - Vai lá, é ele. Um jovem desce com a pistola destravada, se encaminha com uma coragem bamba até o cara. E dá, não só um, mas uma rajada de tiros. (Ele era bom nisso, talvez fosse a única coisa de que se orgulhasse na vida.)
Mas dois ou três segundos depois, uma outra rajada, vinda de um lugar próximo, responde à mesma altura. E o jovem, cujas pernas tortas de nascença nessa altura já se confundiam com seu cambalear agonizante, cai em frente ao carro do seu comparsa, que imediatamente passa em fuga por cima do seu corpo, ainda meio vivo, e dobra a esquina num arrancar de pneus, deixando pra trás um silêncio frio e agudo. Clínico.
Na manhã seguinte lavaram a rua, dizendo que isso é um absurdo, parceiro! E mais absurdo ainda é o absurdo dessa criminalidade, desses políticos, desses ladrões, dessas pessoas! Foi justamente aí que a indignação cessou. Justamente aí quando alguém perguntou se ia chover hoje.
- Acho que não, vi ontem no jornal - respondeu imediatamente um otimista com um sorriso suado, daqueles que tentam se convencer da agilidade e esperteza de ter respostas tão prontas (mesmo que sejam simples), tão na ponta da língua.
Aliás, é mesmo. Foi mais um dia quente. Um calor de rachar. Mas, apesar da irritação e incômodo, quase todos chegaram em casa bem. Os que podiam ligaram o ar-condicionado. Os que não tinham deitaram-se com os pés descobretos bem perto ventilador. E muitos outros ficaram ao relento, no chão ou num canto da laje fria. E todos se conformaram.
À certa hora da noite abafada, um carro de vidro escuro encosta. - Vai lá, é ele. Um jovem desce com a pistola destravada, se encaminha com uma coragem bamba até o cara. E dá, não só um, mas uma rajada de tiros. (Ele era bom nisso, talvez fosse a única coisa de que se orgulhasse na vida.)
Mas dois ou três segundos depois, uma outra rajada, vinda de um lugar próximo, responde à mesma altura. E o jovem, cujas pernas tortas de nascença nessa altura já se confundiam com seu cambalear agonizante, cai em frente ao carro do seu comparsa, que imediatamente passa em fuga por cima do seu corpo, ainda meio vivo, e dobra a esquina num arrancar de pneus, deixando pra trás um silêncio frio e agudo. Clínico.
Na manhã seguinte lavaram a rua, dizendo que isso é um absurdo, parceiro! E mais absurdo ainda é o absurdo dessa criminalidade, desses políticos, desses ladrões, dessas pessoas! Foi justamente aí que a indignação cessou. Justamente aí quando alguém perguntou se ia chover hoje.
- Acho que não, vi ontem no jornal - respondeu imediatamente um otimista com um sorriso suado, daqueles que tentam se convencer da agilidade e esperteza de ter respostas tão prontas (mesmo que sejam simples), tão na ponta da língua.
Aliás, é mesmo. Foi mais um dia quente. Um calor de rachar. Mas, apesar da irritação e incômodo, quase todos chegaram em casa bem. Os que podiam ligaram o ar-condicionado. Os que não tinham deitaram-se com os pés descobretos bem perto ventilador. E muitos outros ficaram ao relento, no chão ou num canto da laje fria. E todos se conformaram.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Conselho de amiga
Outro dia, faz um tempo já, Joseiltom foi lá em casa de novo. Já
tinha dito para não aparecer mais. E que queria ficar sozinha. Só recebi ele
porque ele disse que tava desesperado, que me amava. Escuta isso pra você não
ser leviana.
Nessa época o pai de Joseíltom, dono de uma grande empresa de fraldas, e de outras coisas que Joseiltom me explicava, disse que queria vê-lo casado com uma mulher bonita e inteligente.
Nessa época o pai de Joseíltom, dono de uma grande empresa de fraldas, e de outras coisas que Joseiltom me explicava, disse que queria vê-lo casado com uma mulher bonita e inteligente.
Aí Joseíltom me disse que ia me apresentar sua família. Disse
que não era a hora. Mas ele insistiu dizendo pra não ter vergonha, que eles iam
ficar felizes por saber que estava comigo. Eu e ele fomos. Mas aconteceu que
nesse dia que Joseíltom ficou muito num canto, num orgulho só, enquanto o pai
dele dizia com olhinhos pequenos e vivos: minha filha, cuida bem dele. E dizendo
isso acaraciou minhas costas, num gesto suave e tenro, de que ia se retirar. Eu
percebo as coisas, amiga.
Depois desse aval do pai de Joseiltom, nossa vida melhorou,
achava por convicção. Joseiltom comprava vinhos, quitutes, escutava Tente outra
vez de Raul, e saía, dizia que ia voltar. E assim ficava horas roendo as unhas,
esperando o desgraçado. Mas quase ia me esquecendo que era num sofá daqueles
que você puxa para esticar as pernas e ver tv, novinha, e
que demora a se acostumar, de tão grande que ficam as pessoas.
que demora a se acostumar, de tão grande que ficam as pessoas.
Mas, como me sentia muito sozinha, teve um dia que liguei pro
pai de Joseiltom, Dr. José.
Ele me disse pra não me preocupar, que o filho dele estava no caminho certo comigo, que eu era uma pessoa legal e bonita. Apesar das palavras curtas, não havia tom de preocupação. Aí comecei a enteder que esse pessoal endinheirado não se preocupa muito. De qualquer forma, claro, achei bem convincente e honesto o seu José. E apostei mais ainda no Joseiltom, que realmente não me deixou faltar nada. Aliás, pensei, Chivas, queijos, roupas sem comemoração, um jantar muito apressado de talheres finos não é pra qualquer um. Até um cachorrinho ele me deu, quando muito reclamava da solidão. Batizei-o de Bob, foi o primeiro nome que encontrei. Um dia já muito chateada dancei Madona em frente ao espelho. Eu sou bonita! Mas a vida não é fácil. Nesse dia quase abandonei o Bob, mas tive pena... Paciência! É tudo, amiga, uma questão de paciência, se você roer suas unhas, peça o reparo no dia seguinte com uma manicure que te dê conselhos. Se for bem paga, levanta o astral. Se não for, prega macumba.
Ele me disse pra não me preocupar, que o filho dele estava no caminho certo comigo, que eu era uma pessoa legal e bonita. Apesar das palavras curtas, não havia tom de preocupação. Aí comecei a enteder que esse pessoal endinheirado não se preocupa muito. De qualquer forma, claro, achei bem convincente e honesto o seu José. E apostei mais ainda no Joseiltom, que realmente não me deixou faltar nada. Aliás, pensei, Chivas, queijos, roupas sem comemoração, um jantar muito apressado de talheres finos não é pra qualquer um. Até um cachorrinho ele me deu, quando muito reclamava da solidão. Batizei-o de Bob, foi o primeiro nome que encontrei. Um dia já muito chateada dancei Madona em frente ao espelho. Eu sou bonita! Mas a vida não é fácil. Nesse dia quase abandonei o Bob, mas tive pena... Paciência! É tudo, amiga, uma questão de paciência, se você roer suas unhas, peça o reparo no dia seguinte com uma manicure que te dê conselhos. Se for bem paga, levanta o astral. Se não for, prega macumba.
Tomei a decisão outro dia qualquer, quando já não tinha mais
unhas de novo e nem aguentava mais a manicure fofoqueira, e já não havia mais
dedos que contassem a espera das estropelias de Joseiltom. Aí liguei.
Oi.
Sabe o que é...
Hum.
É que...
Diga, pode dizer...
É que o seu filho... Ele...
O Joseiltom...
É. Ele não...
Tá. Vem aqui. Conhece o Pobre Don Juan, na Barra?
Acho que sim.
Eu também fico muito preocupado com ele. A gente conversa um pouco e depois vemos.
Sabe o que é...
Hum.
É que...
Diga, pode dizer...
É que o seu filho... Ele...
O Joseiltom...
É. Ele não...
Tá. Vem aqui. Conhece o Pobre Don Juan, na Barra?
Acho que sim.
Eu também fico muito preocupado com ele. A gente conversa um pouco e depois vemos.
Fui pro guarda-roupas, não sabia o que botar. Mas acabei
decidindo, depois de algum tempo, aquela que Joseiltom me dera, no reveillom
passado. Que me deu para ficar satisfeita e sumiu, filha da puta!
Peguei um táxi. O taxista era um cara muito legal, bonito e
sedutor. Poderia ser muito educadado também, até tentar umas gracinhas com sua
mão na minha coxa. Achou que tava dando mole pra ele. Amiga, a gente não pode
nem desabafar com homem que eles acham que você tá dando mole. Dei um safanão
nele, com tanta força, que o carro ziguezagueou na Niemeyer e disse quem era,
que ele precisava usar fraldas Santanas. Acho que ele entendeu e não disse mais
nada. O medo era tanto que nem olhava mais para minhas pernas. Amiga, tenho pernas
bonitas e sei bem usá-las. Saber bem usar uma parte do seu corpo é expô-la
protegendo-a. Faça o mesmo com seus peitos. Cadê aquele seu vestido?
Seu José me recebeu com toda gentileza. Disse que seu filho era
assim mesmo, era coisa de adolescente , faz parte, e abriu um vinho. Quando a
gente conversa com um cara desses, a gente fica mais segura, mas a gente sabe
também que não é assim não. Como pode o pai do filho que tô pegando fazer tudo
isso? Como pode? Vir eu aqui reclamar satisfação e... Acha que sou boba? Que
sou idiota? Eu amo, entendeu?! - quase disse isso pra ele.
Mas acho que não tive tempo. Bebi muito, amiga.
Mas acho que não tive tempo. Bebi muito, amiga.
Seu José pediu para que não abandonasse o filho dele, que faria
tudo por mim. Como vou negar um favor desses. Não pude negar, amiga. Já era da
família. Quando se é da família tem que manter as responsabilidades.
Mas eu não tive culpa de nada. Fiz cuidar. Quando Joseiltom
aparecia, fazia tudo por ele, era consideração e respeito, sei lá, ficava horas
acariciando seu pau que parecia uma verruga necrosada, mas mesmo assim o amava
de verdade, me lembro até de um cafuné de horas, e sabia que, se não fosse o
pai dele, ia ficar triste também. Foi aí que eu comecei a entender o que é
noção de família, pelo menos a dos homens.
É aí que eu acho, amiga, que você tem que ser forte nessas horas
com esse rapaz que você está - um garotão, não é? - e amar bastante. Só assim
que temos o devido respeito da família. A vida não é nada mole. Enfim, todo
mundo... até o Dr. José ficou muito abatido. E é nesse momento crucial que
precisamos de pessoas sinceras, e vemos quem são nossos amigos, quem está junto
e te ama de verdade.
No dia que o encontrei, ele me levou num ap em frente ao mar e
chorou com a cabeca no meu colo, dizendo que fizesse tudo por meu filho, e que
a mãe não podia saber de nada, "câncer terminal". Alisei-o. Ele
reagiu positivamente. De repente não era mais choro nem carência. Era uma
felicidade mútua que só as vagas das ondas na Barra da Tijuca podem dizer, no
final de tudo.
Fui fiel ao Joseiltom e ao seu pai. Promessa é promessa. A gente
faz o que pode. Digo isso porque teve um dia que Joseíltom não voltou. Fiquei
preocupada mas não liguei pro seu pai. Achei que era só mais uma vez. Mas aí a
polícia me ligou, que tinha achado esse telefone, se eu era, desculpe, se eu
era a esposa dele. Disse que sim.
Joseíltom morreu numa favela, tava no lugar errado e na hora errada.
O enterro foi no cemitério São João Batista. O velório foi com caixão fechado.
Ele se fudeu. Que merda. Não é bom nem comentar.
Nesse dia dei as condolências à mãe dele, uma senhora muito
elegante, mesmo com fios de borracha enfiados por todo seu corpo, Márcia o
nome.
Nós dois choramos juntos. Ela mais do que eu. Mas também disse
boas palavras: que seu filho era muito bom e honesto. Tinha outras coisas
(espirituais até), mas a emoção me ficou pelos soluços das gargantas. Chorei
bastante por alguma coisa que ficou por dizer, talvez alguma palavra a mais,
nessas horas de comoção... sei lá. A gente chora de verdade, chorar é o
sentimento mais respeitoso e honesto que se pode ter.
Por isso que eu te digo não largue esse homem, amiga. É de
família. E segure a onda nos piores momentos. Tem futuro.
E seja sincera. O lá de cima vê tudo.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Diagnóstico
Aí vou ta explicar como são as coisas. Minha mãe tá com uma infecção urinária que nenhum antibiótico de uso externo (comprimido) faz mais efeito e a médica diz que ela deve se internar durante uma semana para que seja administrado um antibiótico específico pelo soro. E diz também para beber bastante água durante o dia, mas evitar depois das nove para que ela não urine na cama, já que isso agrava sua infecção pois a vagina fica intumescida de bactérias num momento em que se potencializam. Aí eu digo pra ela que amanhã vou levá-la para o hospital para, durante uma semana, fazer o tratamento. Aí ela bate o pé e diz que Jesus vai curar. Aí fico no quarto pensando que vou fazer e resolvo ir pra sala para insistir que se interne e vejo que ela está vendo o pastor RR Soares na tv (isso já quase nove, sei que o programa vai de nove às nove e meia). Aí reparo que ela preparou um copo d'água em cima de um pires que está no mesmo móvel da tv (já vi essa cena). Aí brigo, digo pra evitar água antes de dormir e que o pastor era um impostor e que precisa ir ao hospital. Aí ela começa a se sacudir toda dizendo que eu queria que ela morresse logo e que Jesus, só Jesus salva! Saio de casa batendo a porta. Desço no elevador. Passo pela caixa de correspondência. Por força do hábito abro-a. Nada pra mim mas havia uma para minha mãe. "Igreja da Graça de Deus". O próprio envelope aberto era um boleto bancário pronto pra ser preenchido. Meu Deus!!! Acho que vou procurar um psicanalista.
Aí vou ta explicar como são as coisas. Minha mãe tá com uma infecção urinária que nenhum antibiótico de uso externo (comprimido) faz mais efeito e a médica diz que ela deve se internar durante uma semana para que seja administrado um antibiótico específico pelo soro. E diz também para beber bastante água durante o dia, mas evitar depois das nove para que ela não urine na cama, já que isso agrava sua infecção pois a vagina fica intumescida de bactérias num momento em que se potencializam. Aí eu digo pra ela que amanhã vou levá-la para o hospital para, durante uma semana, fazer o tratamento. Aí ela bate o pé e diz que Jesus vai curar. Aí fico no quarto pensando que vou fazer e resolvo ir pra sala para insistir que se interne e vejo que ela está vendo o pastor RR Soares na tv (isso já quase nove, sei que o programa vai de nove às nove e meia). Aí reparo que ela preparou um copo d'água em cima de um pires que está no mesmo móvel da tv (já vi essa cena). Aí brigo, digo pra evitar água antes de dormir e que o pastor era um impostor e que precisa ir ao hospital. Aí ela começa a se sacudir toda dizendo que eu queria que ela morresse logo e que Jesus, só Jesus salva! Saio de casa batendo a porta. Desço no elevador. Passo pela caixa de correspondência. Por força do hábito abro-a. Nada pra mim mas havia uma para minha mãe. "Igreja da Graça de Deus". O próprio envelope aberto era um boleto bancário pronto pra ser preenchido. Meu Deus!!! Acho que vou procurar um psicanalista.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
Amiga de longa data
Ontem uma amiga minha de anos, que já deu pra metade do bairro, melhor, quase todo, se o recurso da hipérbole não for vulgar e inapropriado, e às vezes em grupo, porque ela gostava mesmo, e as pessoas que não comeram (em geral moralistas cuja a dissimulação da inveja está sempre a jogar pedras e subestimar as fraquezas da carne) recriminavam. Enfim, passou por mim, com seu namoradinho ex-um-monte-de-coisas, que não vale um parêntesis; o que não me habilito a dizer (por uma questão de ética, claro) é se é ex-corno também. Passou, de mãos dadas, indo à Igreja Evangélica dos Últimos Bem Aventurados e não me cumprimentou. Quando passou olhei sua bunda. Não sei se os moralistas ainda reclamam. Creio que não, pois o rebolado continuava o mesmo. Jesus!
Ontem uma amiga minha de anos, que já deu pra metade do bairro, melhor, quase todo, se o recurso da hipérbole não for vulgar e inapropriado, e às vezes em grupo, porque ela gostava mesmo, e as pessoas que não comeram (em geral moralistas cuja a dissimulação da inveja está sempre a jogar pedras e subestimar as fraquezas da carne) recriminavam. Enfim, passou por mim, com seu namoradinho ex-um-monte-de-coisas, que não vale um parêntesis; o que não me habilito a dizer (por uma questão de ética, claro) é se é ex-corno também. Passou, de mãos dadas, indo à Igreja Evangélica dos Últimos Bem Aventurados e não me cumprimentou. Quando passou olhei sua bunda. Não sei se os moralistas ainda reclamam. Creio que não, pois o rebolado continuava o mesmo. Jesus!
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
Prepúcio
O padre pediu-me para que baixasse as calças. Achei estranho, mas de uma estranheza diferente, não era medo mas também não era coragem, ninguém tem coragem do que não conhece. Era obrigação e um certo respeito.
Via, nos álbuns de fotografia, que Ambrósio era amigo da família e confiável, entendedor de latim, de Aristóteles, das Escrituras. Batizou-me, fez minha primeira comunhão, dava conselhos nos estudos bíblicos.
Uma vez, quando acordei, meu pau ficou de uma maneira diferente. Não sabia o que era pau (achava que só servia pra fazer xixi) e não sabia o que era diferente, de seus outros usos. Só sabia que me incomodava porque toda vez que ficava duro era um prazer diferente do prazer de comer um doce ou sentir as cócegas na nuca que sentia quando minha irmã mais velha chegava da faculdade me chamando de anjinho com um olhar diferente e, de corpo meio mole, levemente passava seus dedos. Era um prazer que não sabia bem, mas que doía.
Não falei pra minha mãe nem pro meu pai, por falta de tempo e vergonha. Mas Ambrósio, acho, que percebeu. Perguntou como estava o colégio, fez algumas perguntas inúteis de gramática (que prontamente respondi), tergiversou sobre a razão e os caminhos seguros da fé em Deus. E que toda fé exige estudo, sabedoria, filosofia, que os protestantes tinham uma fé cega, falsa e irrefletida, sem o respaldo da escolástica, da razão e da lógica, já que Deus iluminara o homem para contemplar a perfeição - apesar de todos seus defeitos, claro - dizia buscando algum pensamento recluso, algum mistério da fé. Enfim, falava de muitas outras coisas que acho que só entendi depois, na mesma época que descobri o que era dinheiro e poder. Aí comecei a achar que era esse todo mistério, a revelação de todas incertezas humanas. De qualquer maneira, foi assim que, já nu, ele se aproximou.
- Não se assuste, meu filho.
Quando fazia para frente e para trás - igual a sensação que tive sem saber e sozinho no banheiro dias atrás - com a mão direita, deu aquela sensação esquisita, mas era bom, mas doía também. E assim ficamos durante algum tempo. Até ele dizer chega, buscando alguma medalha ou santo perdido na sacristia. E já suando desabafou que a diocese precisava mandar vir os técnicos de ar-condicionado, que isso era um absurdo!
Uma semana depois, minha mãe e meu pai me disseram que eu ia fazer uma cirurgia, que era tranquila - e muito importante, meu filho. Era uma pele que devia ser retirada - disseram sem muita explicação.
Foi quando cresci e adiquiri esse hábito constante. Mas que só confesso ao padre Ambrósio.
O padre pediu-me para que baixasse as calças. Achei estranho, mas de uma estranheza diferente, não era medo mas também não era coragem, ninguém tem coragem do que não conhece. Era obrigação e um certo respeito.
Via, nos álbuns de fotografia, que Ambrósio era amigo da família e confiável, entendedor de latim, de Aristóteles, das Escrituras. Batizou-me, fez minha primeira comunhão, dava conselhos nos estudos bíblicos.
Uma vez, quando acordei, meu pau ficou de uma maneira diferente. Não sabia o que era pau (achava que só servia pra fazer xixi) e não sabia o que era diferente, de seus outros usos. Só sabia que me incomodava porque toda vez que ficava duro era um prazer diferente do prazer de comer um doce ou sentir as cócegas na nuca que sentia quando minha irmã mais velha chegava da faculdade me chamando de anjinho com um olhar diferente e, de corpo meio mole, levemente passava seus dedos. Era um prazer que não sabia bem, mas que doía.
Não falei pra minha mãe nem pro meu pai, por falta de tempo e vergonha. Mas Ambrósio, acho, que percebeu. Perguntou como estava o colégio, fez algumas perguntas inúteis de gramática (que prontamente respondi), tergiversou sobre a razão e os caminhos seguros da fé em Deus. E que toda fé exige estudo, sabedoria, filosofia, que os protestantes tinham uma fé cega, falsa e irrefletida, sem o respaldo da escolástica, da razão e da lógica, já que Deus iluminara o homem para contemplar a perfeição - apesar de todos seus defeitos, claro - dizia buscando algum pensamento recluso, algum mistério da fé. Enfim, falava de muitas outras coisas que acho que só entendi depois, na mesma época que descobri o que era dinheiro e poder. Aí comecei a achar que era esse todo mistério, a revelação de todas incertezas humanas. De qualquer maneira, foi assim que, já nu, ele se aproximou.
- Não se assuste, meu filho.
Quando fazia para frente e para trás - igual a sensação que tive sem saber e sozinho no banheiro dias atrás - com a mão direita, deu aquela sensação esquisita, mas era bom, mas doía também. E assim ficamos durante algum tempo. Até ele dizer chega, buscando alguma medalha ou santo perdido na sacristia. E já suando desabafou que a diocese precisava mandar vir os técnicos de ar-condicionado, que isso era um absurdo!
Uma semana depois, minha mãe e meu pai me disseram que eu ia fazer uma cirurgia, que era tranquila - e muito importante, meu filho. Era uma pele que devia ser retirada - disseram sem muita explicação.
Foi quando cresci e adiquiri esse hábito constante. Mas que só confesso ao padre Ambrósio.
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