quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Celebração final


A vida é uma grandiosa festa,

que segue do grosso intestino

ao flácido cu que, sem arrimo,

libera o que tudo corre às pernas.


A vida é uma grandiosa mesa.

Lá nobilíssimos convidados

exibem jóias e engravatados

vermes jantam o que foi beleza.


Uma grandiosa alegria é a vida.

Pois da primeira até a última lauda

contida é no tecido da fralda.


E é só então na derradeira rima

que se espatifa na laje fria,

e se vê como rosa mais alta.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Sobre a idade, a ilusão e a realidade


É romântico dizer que tem 80 com cabeça de 20, ou que a criança já é esperta como adulto. São ilusões e deslocamentos porém, que em nada ajudam na tessitura do presente e do real, alheados num mundo de nuvens - que um dia despencam como a mais terrível tempestade em plena caminhada no deserto da vida.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Pedido de oração


Com trejeito feminino mas, ao contrário do que se pensa, sem os traços da vulgaridade, o jovem com rímel, lápis na sobrancelha, cabelos longos, tingidos de loiro e escorridos numa curva chanel até a nuca entrou no púlpito (ou palco) da igreja evangélica no momento em que o Pastor convoca os fiéis para pedido de oração. E, levantando as mãos com seu terno marrom, de três botões, um tanto desgastado e curto, disse radiante:

- Glória Deus! Aleluia! Já vejo que Jesus tocou seu coração! E Ele já me cantou... Quer se libertar, né irmão?
- Quero.
- Senhor, meu Deus! Liberta esse homem! Aleluia! Diga Aleluia.
- Aleluia!
- Diga: creio em Deus todo Poderoso!
- Eu creio em Deus todo Poderoso!
- Diga: eu quero me libertar!
- Eu quero me libertar!
- Diga: eu quero me libertar do homossexualismo, eu quero a cura gay!
- Mas Pastor...
- Vamos lá, irmão! Só Jesus salva!!!
- Pastor... É que...
- Força, irmão. Deus é maior. Vamos, aceita Jesus no seu coração. E repita comigo: EU ACEITO E QUERO ME LIBERTAR!
- Ai Pastor! Quero isso não, homem de Deus... O que quero mesmo é uma oração para curar minhas hemorróidas... E me liberar para sair com meus bofes!

Pego de surpresa, a única e última arma do Pastor era sentenciar num grito que fez saltar as veias:

- Sai desse corpo, Demônio! Em nome de Jesus!

E, discretamente, gesticulou com os dedos para os obreiros - verdadeiros armários gigantes e da fé - que o levaram para os bastidores, longe das câmeras e de olhares curiosos. Mas não sem gemidos de ui ui do vaidoso jovem, cujo propósito no templo é, na mesma medida que uma verdade exterior se vale de uma mentira implícita, até hoje questionado por muitos. O que torna, salvo o grotesco embuste, a diligência - sem preceitos morais - entre a verdade e o ceticismo tarefa dificílima.

De qualquer modo, leitores, somos obrigados, infelizmente, a parar por aqui... Pois quem viu e conta esta história se abstém de qualquer julgamento se eram gemidos de dor ou satisfação.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

 Pérola


Como Ivanir tinha que emagrecer por recomendações do cardiologista, sua esposa de muitos anos, sentada no sofá e lendo o bestseller de 1 milhão de exemplares vendidos "Cristais, mística e intuição feminina", olha por cima dos óculos de meia taça para seu marido e diz numa conclusão mágica:


- Posso te dizer uma coisa?

- O quê?

- Não perde a barriga não.

- Por quê?

- Porque quem perde a barriga fica parecendo bicha. Macho mesmo tem barriga.

- ...


Em meio a isso tudo, foi assim que, depois de bater a sola do pé no chão, cruzar e descruzar os braços, coçar o queixo e resmungar que só tem merda na televisão, Ivanir comunica - com um certo cansaço na voz - que vai comprar uns cigarros no botequim. E ela arremata com mais energia e determinação:


- Mas também não pode se entupir de cigarros e chegar bêbado em casa.


Ele desiste de tudo e vai dormir. Ou tenta. O coração palpitava...

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Dobradiças


Tenho muitos colegas 

alguns de 20

outros de 18

e outros até de 16

(não importa,

a geração é outra

e a janela é aberta). 

E muitos já pensam

tal sóbrios quarentões:

sem batuques na rua

sem violas e festas

sem luas indiscretas

nem bosques violados.

Uma pena, 

                     talvez.


Já outros... de 50,

48 ou, quem sabe, 46 

(não importa,

a geração é a mesma

e a janela se fecha).

Estes, amigos,

nem parecem

ter completado 

ao menos seus 16. 

Pois, de tanto tocar, 

não se tocam ainda

que a vida passou

tal vez.

              Uma pena!

sábado, 5 de setembro de 2020

No tecido da noite


Foi nesse dia nu de areia fina

que bem soube ele que era sua vez:

da lua branca, esbelta, alta e cheia

na bracura imóvel da sua tez.


Nesse dia soube também amar

como o mar ama e lascivo quer

a virgindade secreta das rochas

e a voz inquietante de cada grão.


Porém... Diz, meu bem, como amar preso?

Entre os ossos dos tijolos da casa,

através do intransponível peso

do vidro surdo e opaco da janela?


Ama-se sem se ver realidade bela?

Foi por isso que assim resolveu

- não como quem simplesmente resolve

comparar poesias ao mistério do eu.


Foi por bem que com coragem resolveu, 

como quem se resolve livre voar

nas asas noturnas e etéreas do ar,

como mariposa rumo à luz no breu.


Foi então, no ofuscado luzir do amor, 

ao limite do penhasco e seu vão.

Não se jogar. Pois isso, senhor,

é coisa de jovem com depressão.


Mas iria lá por bem fotografar

a foto nunca vista, linda e bela,

do céu na lua, da lua lá no mar:

gotinhas de luz em escura tela.


Mas na liquidez sórdida da noite

terrivelmente e crua sombra surge:

- Passa bem cá, rápido e pra já

a carteira, relógio e seu celular.


Pois bem. Carteira o jovem não tinha.

Se a tinha, era de pouquíssima valia,

nem mesmo um centavo a mais sequer

do alto valor de sua violada da vida.


Do rapaz (cujo único desejo lá

era à bela namorada postar

a agulha do tempo em redes sociais)

ficou o pesar em páginas de jornais.


E o sonho do selfie com o céu

veio apenas como mais um grão

entre as pegadas cruas da vida.

E a pálida areia da lua jaz em paz


tecendo o frio da noite no chão.


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Nadar


Quem nada tudo

                       não

                       morre

                       na praia


Claro,

ao menos pega um sol

que logo

                nos afaga


                vivo

                        num sonho

                        morno alado

                        que ao fim

e ao nada

                   e ao solo

                   assim se espraia