domingo, 10 de outubro de 2021

Lições sobre o tempo 

Uma das vantagens de um adolescente ter um animal de estimação, desses que só vivem 15 anos, é que já se aprende  - e domestica - de maneira bem real as relações afetivas que temos com o começo, o meio e o fim. 

sábado, 2 de outubro de 2021

Migração

Se o inverno se foi,
vai junto setembro.
Mas ainda tem um vento
atrás da orelha, boi.

              *

Outubro já mexe
orelhas de elefante
ao pouso leve
do voo distante.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Paiol


Uma árvore é mais bela que a palavra árvore.
A palavra árvore é bem mais que qualquer arma.
Mas a palavra arma também se faz bela ou feia.
(Como qualquer paixão pode ser feia ou bela.)
Por exemplo: armo-me de ódio ou medo ou flor.

Por isso, às vezes, é melhor deixá-la bem guardada
entre minerais e páginas de sono. Nos dicionários.
E só sacá-la quando for útil... Ou muito necessária.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

sábado, 4 de setembro de 2021

                              A Simone Conforto

O baile das saias


Ando nas estrelas
porque andar por baixo
anda muito chato.
Só verniz não espelha
solas de sapatos.

Curvo os arcos-íris
porque a curva do Homem
vai muito fechada.
Não flui, contradiz.
É ponta de faca.

Bailo de saias líquidas
porque pesa a armadura
do tédio e disfarces.
Bailo em núpcias
nos seios nus dos mares.

Das nuvens recolho
a lã que transborda
tardes cor de rosa.
E borda num sopro
a paz que renova.

Essa paz sou eu.
Em parte. Pois a outra
faz parte do breu.
Lua cheia. Lua nova.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

As chaves


Não saio de agosto
como quem sai de casa
sem chave que abra
memórias de bolso.

                *

Se setembro se abre
- portas invisíveis -
e o horizonte se fez,
vem por dentro a chave.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Divisão social do trabalho


O assaltante assaltou o professor
que estudava crimes.
Os crimes eram punidos, na forma da Lei, pelo juiz.
Que tinha livros de Ética e Direito Penal,
comprados na livraria tal, perto de casa,
e editado por famosa editora,
cuja secretária, solteira e assalariada,
tinha uma linda garota.
E assustada com as notícias dos jornais
- entre elas a do nosso perigoso assaltante -
queria que sua única flor se casasse com o juiz,
que, não se sabe por que questão
 - classe, orgulho ou paixão? -
acabou mesmo foi com a promotora.
Porém a moça, já bela e universitária, 
teve uma quedinha
- como quedas d'águas puras e cristalinas
mas, rio abaixo, arrastam cipós, terra e coração -
pelo professor.
Que, além de muitas outras histórias,
contou sobre o assalto e seu assaltante,
que - acredite! - ao final das contas se deu bem.
Pois nas mãos da garota 
- agora mulher, madura e escritora pródiga -
virou personagem de romance.
De best-seller internacional!
E assalto mesmo, meus bons leitores,
só na imaginação...
 
Posto que aqui tudo é paixão:
seria crime, não fosse ficcional.