sábado, 19 de janeiro de 2013

Nome ou codinome?


Por não saberem da minha dor,
me chamam de Professor.

Por não saberem meu nome inteiro,
me chamam de Livreiro.

Por não saberem da minha meta,
me chamam de Poeta.

Por saberem mais que tudo,
me chamam de Maluco.

Mas chamem-me só de Ivo,
que eu assino o livro.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Longa-metragem


Ele, o grande amor, vai em câmera lenta,
no quase instante (lascivo) da gota.
Em close, para eternizar a cena.
Em off, para não perder o pudor.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Com meu amor


O que vou fazer com meu amor?
Guardá-lo (silêncio de baú),
enrolá-lo em panos amarelados,
como mudo instante que passou?

Inventariar roupas esquecidas,
brancos lençóis e grandes saias
que flutuam varais de lembranças
ao roçar a brisa adormecida?

Irei trazê-lo, embrulhado aos braços,
como aquele pão mal-dormido
na longa insistência do amanhã,
na curta existência do ocaso?

Com meu amor terei borboletas
sem destino. Mas com afinco
ao quieto sentido: vagalumes.
E topo na pedra-destino.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Amor

Contigo minha relação é de silêncio,
de sombras que transpiram no silêncio,
de sombras que se tocam no silêncio.
Do silêncio impalpável das sombras.

De silêncio insondável é feito o oceano,
que se recolhe todo na concha da mão
e se esvai no filete gotejante do tempo
pigmentando a sombra da lembrança.

O silêncio dos sonhos no céu,
o branco silêncio da rosa, das lágrimas,
das sombras das aves, dos lábios tocados,
da palavra formada e jamais alcançada.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vênus

O amor agora é embalado a vácuo.
Sem distinção, em série, vigiado.
Enfileirado em painéis metálicos;
cravado em finos pinos fálicos.

No varejo ou no atacado o amor é belo.
No crédito ele é mais que um elo.
Mas é no débito que dá tesão,
tal propaganda de televisão.

Lubrificado artificialmente,
tem medo, tem risco e até não se sente.
É desejo contido, por um fio...

Por fina película, dividido.
Assim é nosso amor dia a dia:
comedidos versos, não contagia.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A simplicidade das coisas


Quanto tempo e páginas
já não foram desperdiçadas
para definir
a essência de uma flor?

Mas o tênue tecido
de suas pétalas
(não tenhamos medo)
nada mais exige
que uma simples palavra:
amor.



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Noite e dia


Depois da lasciva noite com bocas
loucas. Entorpecidas por mais vida.
E da latência quente das veias na úmida
cavidade do útero, da rima rouca.

Depois da lacunar noite dormente
e ausente. E da satírica união: carne
tênue e clara com tez que arde;
e explode esperma na aurora silente...

(As horas se apagam no pulsar do sono
no segredo quieto e inviolável do corpo
na lembrança esquecida do coito.)

Depois dos cus e uis da noite, pronto!
Recomposta, a face se faz metálica.
Em sua armadura sóbria, disfarça.