sábado, 29 de agosto de 2015

Devaneios

Quem me dera ter um amor
que agora não tenho.
Não para dizer que o tenho
mas para não temer a dor
que neste instante temo.

Quem me dera ter uma dor
que ainda não temo.
Não para dizer - já a entendo!
Mas  desentender o que for
que só se tem sem remo.

Quem não me dera
o que agora tenho.

Latente.
Pulsante.
Quieto.
Silenciosamente quieto.
Na saliência vigente e velada
das vogais brancas dos lençóis,
arfantes mas discretos.

Quem me dera o que se tirou
da razão, do sol e da primavera.
Mas sobeja neste meu coração
de desesperança e espera.
A poesia
é uma
             prótese
dentária.
Você morre
ela
             fica.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Entre erros e acertos
"Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há portanto certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade."

Este fragmento foi citado no dicurso de posse de Evanildo Bechara na Academia Brasileira de Letras e pertence a Machado de Assis. No entanto, logo surgem dúvidas quanto à sua correção neste período: "Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes." Entendendo a oração subordinada substantiva "que as línguas..." como completiva nominal (ou adjetiva como quer Bechara), deveria ela vir encabeçada pela preposição "de" (antepondo-se à conjunção integrante "que"). De qualquer maneira, ele mesmo diz em sua "Moderna Gramática" que as substantivas "são transpostas a adjetivas mediante o concurso da preposição"(p. 468). Já na gramática de Azeredo há a possibilidade do apagamento da preposição (p. 314). Mas sabemos que ele se aproxima de uma gramática de usos, sem o rigor normativo. Rocha Lima e Celso Cunha não fazem menção a esse apagamento. Mas Marcos Bagno elenca um amplo corpus da NURC (Norma Urbana Culta) e intitula isso de queísmo. Aliás, fenômeno já observado por outros estudiosos. Por fim, nos esclarece Claudio Cezar Henriques, em seu manual "Sintaxe Portuguesa - para a linguagem culta e contemporânea" (p. 106), citando Maria Helena de Moura Neves, que segundo a pesquisadora não "é das mais defensáveis a afirmção de que esse tipo de omissão só ocorre 'num registro mais informal'" e, num exemplo bem semelhante ao nosso, vê-se em Padre Antônio Vieira: "Não há dúvida que na comparação de império a império, o uso e exercício dele foi muito mais humano e benéfico" (Dicionário de Regimes de Substantivos e Adjetivos, de Francisco Fernandes).

Por outro lado, poder-se-ia ver a oração subordinada não como completiva nominal, mas como subjetiva. Mesmo assim não observamos registro, em nenhuma dessas gramáticas, de construção com o verbo impessoal "haver". Só se, semanticamente, entendermos "Não há dúvida" como "É certo", "É claro" e por aí vai. Assim, a subordinada pode prescindir da preposição. Mas tal análise é falha porque se trata de um verbo, como dissemos, impessoal, e segundo Bechara umas das características da subjetiva é o verbo da oração principal estar na terceira pessoa do singular (p. 484). Ele está, mas não se remete desinencialmente a um sujeito, por tratar-se de uma oração sem sujeito e por isso não ser conjugado em todas as pessoas do discurso.

A gramática como vimos nos deixa num labirinto de sentidos e estruturas, nos prega peças - inclusive a do erro -, mesmo se tratando de um grande mestre. Mas, como está no fragmento, até Machado abre brechas, eventualmente, na norma para o dinamismo da língua, se aproximando do uso comum e hodierno, e se afastando, brilhantemente, para a lucidez de um estilo genuíno e próprio.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Perdulário

Tirei a camisa
e pendurei no varal
Arriei minhas calças
e dependurei
Já os furos das meias
arremessei, bem longe, pra lá
E entre a camisa e as calças
faltaram-me tirar o volume das cuecas
Perdulei
e fiquei totalmente nu

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Oração subordinada


O dono lá de cima
cobrou o presidente
que cobrou o governador
que cobrou o prefeito
que cobrou o empresário.

O empresário pediu ao banqueiro
(que cobrava alto todo mundo)
e cobrou de dona maria também
que, como não tinha a quem cobrar,
pôs as mãos no rosto
acendeu uma vela
e orou.

domingo, 19 de outubro de 2014

Registro de Ocorrência

Friedrich Nietzsche vai dizer que não existem fatos, só interpretações.

Pois bem, outro dia fui à casa de um amigo. A palidez dos traços - que mais parecia uma meia lua desnutrida, já que era magro, bem magro mas com óculos grandes e olhos atentos - já revelava que era um poeta de mão cheia, ainda mais com sua meia idade. O seu versejar sempre visitava lugares sujos, podres e nefastos. Lia também Nietzsche e apreciava, principalmente, boa quantidade de bebidas. De preferência, aquelas que estivessem mais acessíveis. E, como todo apreciador de Nietzsche, poesia e bebida, a verdade sempre anda numa corda bamba, mesmo que o chão esteja ali: plano, duro e a um passo dos seus olhos. Mas há sempre um abismo entre o que se vê e o que se quer ver. Por isso mesmo, às vezes tropeçamos nesse vácuo infinitesimal; até quando estala o osso e a realidade.

Mas deixemos de entrelinhas e vamos ao que de fato nos interessa. Quando entrei, percebi um  certo mal humor; mas até aí tudo bem, pois não andava nos seus melhores dias de economia: pouco trabalho, aluguel atrasado e tudo mais. Além disso, esquivava seu rosto na meia luz da sala.  Mas era inevitável, uma enorme roxidão no olho, como se uma ferradura em brasa de má sorte ali o tivesse marcado. Denunciava-o. Se fosse tênue, poderia até fingir que eu não via nada - como tantas vezes fazemos para ser gentil com as pessoas - mas a obviedade do fato constrangia tal pudor. Poderia até ajudá-lo, conforme o caso.

- O que houve? - perguntei demonstrando um espanto meio disfarçado.
- Fui assaltado - disse trincando as palavras.
- Como? Onde?


Falou, com uma displicência que evita deslizes, que tinha parado numa árvore em Copa para urinar - urinar não, que não é palavra que  se preze pra este personagem, mas sim mijar -, mijar de madrugada, quando passou um bandido e pediu-lhe para passar a carteira. E nosso amigo, como se escorava com uma mão e com a outra calibrava a pontaria, respondeu prontamente:

- Tudo bem... Segura aqui, que vou pegar.               

Quando terminou de contar a história, sorveu um gole de cachaça, ou alguma outra coisa parecida, acendeu um cigarro, iluminando a mancha de seu rosto, e reclamou de alguma coisa que não me lembro bem o que era ...

Enfim... sobrou o silêncio. Por isso acho melhor ficarmos por aqui. Se os fatos são verídicos não sei. Talvez nem o poeta se lembre direito.



Pa
 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aforismo

O preconceito que as crianças têm é o mesmo que os adultos carregam. Só que o delas é sincero e honesto, destes falso e corruptível. O jogo social se encarrega disso. Por isso que quando nos olhamos no espelho forjamos um sorriso e vemos o quanto ele é forçado e triste. E ensaiamos com toda sinceridade: qual sorriso farei naquela festa, naquela reunião? Mas o espelho, implacável, te diz: "Conforma-te, o único amigo fiel que tens sou eu." Na verdade, o que queremos mesmo, ao nos olharmos, é não envelhecer (e não ter preconceito disso), o que queremos é voltar à infância. (Espelhos também enganam.) Mas já é tarde! E continuamos fingindo que não. E achamos tudo isso normal.