terça-feira, 11 de maio de 2021
sexta-feira, 30 de abril de 2021
segunda-feira, 26 de abril de 2021
sexta-feira, 23 de abril de 2021
quarta-feira, 14 de abril de 2021
O cara sem crédito
"O poeta é um fingidor", Pessoa
Fui desacreditado quando nasci.
Me jogaram no orfanato dos homens
já crescidos, cujas faces sérias
tecem sombras e vários mistérios.
Fui desacreditado na escola.
- Seu filho tem déficit de atenção.
Não lê. Não escreve. Não ata cordas
da vida nem mesmo as dos sapatos.
Fui desacreditado no primeiro amor.
No segundo no terceiro... E no quarto
descobri a pálida nudez das paredes:
mais tesão que a palavra emplumada.
Fui desacreditado por vizinhos:
- É um cara muito, mas muito esquisito!
No trabalho:
- Está sempre, mas sempre atrasado!
Por colegas:
- Por aí vai... sem pé, cabeça ou destino!
Enfim, fui desacreditado até neste poema.
Por bem! Pois só assim podemos, irmãos
fingir juntos - e acreditar em alguma coisa.
sábado, 10 de abril de 2021
Barroco
Se me coloco no lugar do outro,
não sei com quem sou, perco-me já.
Mas se sigo com a bunda no sofá,
num excesso só meu, estarei louco.
Se parte de mim se parte no mundo,
cabe-me dentro a metade confusa,
aquela que me pertence e não muda.
E por ser tão inteiro até me confundo.
Cada um tem seu ser e sua metade;
cada metade de um que, por completo
ser, por silencioso e tão discreto:
é concha no mar que aqui dentro invade.
Sob céu, somos sol e lua, cada estrela.
Universo - e eternidade rasteira.
domingo, 28 de março de 2021
Inspirado na música No Céu da Tarde, de Aloysio Neves.
Para Aloysio Neves
Nuvem que passa
Poderia ser um poema
sobre aquele primeiro beijo,
que estalava louco no pátio
do desejo que se desvenda.
Poderia ser um projeto
cujas escalas musicais
violam cordas do horizonte,
atrás do pássaro liberto.
Poderia ser um discurso
com capas, capelos e palmas
ecoadas no ar etílico
da aura do tempo, ao fim do curso.
Poderia ser um pedido
de noivado sob luz de lua,
testemunha silente do ato
em sua permuta de destinos.
Poderia ser uma carta
do filho-bronze que não veio,
do amor de prata que se foi,
do leito da dor que indaga.
Poderia ser sim: o fim.
A falsificação da resposta,
a punhalada do abismo,
cota-céu sob os pés de Caim.
Cenho sem senhas. Fantasia,
antigos carnavais. O pó,
halo sem luz, lustre sem sala.
Nó que pende. Tudo podia!
Porém, nesse dia que invade,
sentado ao ócio da varanda,
só olhava a nuvem que sumia.
E era branca, no céu da tarde.