sexta-feira, 21 de maio de 2021

Mão de obra excedente


A mão de obra excedente (desempregados) é um grande negócio para o capitalismo. Abaixa os salários, pressiona quem está trabalhando a produzir como um cordeiro, que não se sabe realmente se é de Deus, "justifica" a não implementação de benefícios trabalhistas, pois "não teria pra todos". E agora serve como cabo eleitoral de Bolsonaro para atacar as necessárias medidas de isolamento contra a Covid, em vez de dar suporte social. 

O que  há é uma grande mentira quando o poder executivo, fantoche dos megas empresários, diz que quer solucionar o desemprego. Não quer! O capitalismo, da maneira avassaladora que é dado, precisa dele como escudo para reivindicações trabalhistas, conquanto que esse nível não fique fora de certos limites, o que acarretaria distúrbios  sociais e, pior que isso, um endividamento que teria efeito cascata, atingindo até os credores. 

Mesmo assim parece que a resiliência, a passividade dos brasileiros (até certo ponto justificável por um "salve-se quem puder" mas com complexo de vira-lata), sob comando de igrejas de má fé, entusiasma a alta burguesia a suportar mais que um limite razoável de miseráveis, levando sem piedade - e pondo toda culpa na falaciosa meritocracia - muita gente para o céu bem antes do que se imagina. Multiplicando mais fome do que pão. Mais desesperança que confraternização.

terça-feira, 11 de maio de 2021

O encontro


Como se fechasse botões pelo chão
a vida, meu caro e nobre amigo
é agulha frágil como uma formiga.
Mas com braços de aço quando suporta
em suas costas a folha verde e espessa.

Até então encontrar o invisível ponto
caminho da tinta fresca, uma bota.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Só mas aerossol


Apesar de abril
dentro ainda trancado.
Mas bem que o sol viu
um coração alado.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Sobre amigos antigos


A impressão de que certos amigos de longa data te evitam nos leva a pensar que querem se livrar de ti por alguma incompatibilidade de espírito ou mesmo preconceito moral. Mas numa observação mais profunda podemos levantar a suspeita de que, inconscientemente ou não, querem, na verdade, se livrar do próprio passado num gesto instintivo - como se tivessem receio de haver uma testemunha viva de atos que lhes causam, para usar um termo ameno, incômodos na consciência. Todavia, posso - num regozijo dilacerante - confortá-los lembrando que a reciprocidade é a mesma.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Por trás da história


Hoje vi um preto correndo!
Olhava pra trás pra trás...
E sumia na cruz da esquina.
Mas veja: não era o ladrão!!
Era o porém. Era a vítima.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

O cara sem crédito

                     "O poeta é um fingidor", Pessoa



Fui desacreditado quando nasci.

Me jogaram no orfanato dos homens

já crescidos, cujas faces sérias

tecem sombras e vários mistérios.


Fui desacreditado na escola.

- Seu filho tem déficit de atenção. 

Não lê. Não escreve. Não ata cordas 

da vida nem mesmo as dos sapatos.


Fui desacreditado no primeiro amor.

No segundo no terceiro... E no quarto

descobri a pálida nudez das paredes:

mais tesão que a palavra emplumada.


Fui desacreditado por vizinhos:

- É um cara muito, mas muito esquisito!

No trabalho:

- Está sempre, mas sempre atrasado!

Por colegas:

- Por aí vai... sem pé, cabeça ou destino!


Enfim, fui desacreditado até neste poema.

Por bem! Pois só assim podemos, irmãos

fingir juntos - e acreditar em alguma coisa.



sábado, 10 de abril de 2021

Barroco



Se me coloco no lugar do outro,

não sei com quem sou, perco-me já.

Mas se sigo com a bunda no sofá,

num excesso só meu, estarei louco.


Se parte de mim se parte no mundo,

cabe-me dentro a metade confusa,

aquela que me pertence e não muda.

E por ser tão inteiro até me confundo.


Cada um tem seu ser e sua metade;

cada metade de um que, por completo

ser, por silencioso e tão discreto:


é concha no mar que aqui dentro invade.

Sob céu, somos sol e lua, cada estrela.

Universo - e eternidade rasteira.