sexta-feira, 2 de julho de 2021

Corporal


Patético seria te prometer
Que na carne não rasga a veia
Que na veia não rasga o sangue
Que no sangue não rasga a vida
Que a vida não se rasga em estética.

E depois, de cara bem lavada
ainda dizer que não serve pra nada!

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Classe média

...notei que ela me agradecia, 
revelando melhor sua delicada composição, Drummond


Entre sacos, garrafas
de vidro, latas
de coca, cacos
de lares guardados
em caixas de rivotril.

Entre o acúmulo
diário da fofoca
varrida, de pelos
de gato, cão, restos 
de pele, unhas roídas,
bandaids de tédios.

Entre o gozo asfixiado
numa borracha, entre
o espiar cego da escada,
que queda em dominós,
ou o alçar súbito, veloz.

Entre códigos de barras,
o consumo atroz da classe
média. Das portas atrás
das casas. Das casas atrás
dos desejos. Dos desejos atrás
dos medos. E os medos atrás
das farpas na pontas dos dedos.

Entre todas essas coisas
e ainda o que não se vê
e ainda o que à deriva vai
como submerso iceberg
apartado de nossas vidas
polares, em inexorável fluir
as fugas dos sons dos ecos
nas paredes do céu e do mar.

Entre todas essas coisas
e ainda o que não se crê,
creia-me: eu achei (talvez
comprada às pressas,
tal como o vazio diário
lotado de bugigangas,
plásticos, calças, marcas,
cabides sem fala ou destino,
tal como o frio alvejado
das prateleiras sob o ar-
condicionado-a-ser-coisa
em toda humana causa).

Eu juro! Não foi um furto
de poeta ou anjo torto.
Em vaso, achei-a na terra,
que nos abraça aos pés
e encharca o dia e a alma.
De resistência singela
era pura, era bela, era flor.
Se fora descarte de lixo,
hoje bem a rego. E sou.
Feliz, sou homem. Rico.


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Em junho


Ao final do outono
segue-se o inverno.
Recolho-me em sonho
e entrego-me aberto.

                *

Os cacos dos dias
reúno em mosaico.
Se durmo em vigília,
dos sonhos não saio.

domingo, 20 de junho de 2021

Carta sobre o Novo Ensino Médio


Ilustres,

Peço um minuto para algumas palavras necessárias e importantes sobre a proposta do Novo Ensino Médio promovida, na calada da noite, pelo governo estadual do Rio sem a consulta aprofundada dos envolvidos e da sociedade.
 

Para não dar ar de aborrecido diremos SIM à pergunta: Vale a pena fazer um novo ensino médio? Mas seguem-se importantes ressalvas, que  -  saindo da aparência enganosa da publicidade  -  darão um sentido autêntico e honesto ao termo NOVO. Aí sim começaremos com o fundamental, já que tratar algo como "novo" através de truques velhos, além de má fé, tem cheiro podre de campanha política.

Senão vejamos como ficaria um verdadeiro NOVO - com ares frescos da manhã. Em um turno as matérias tradicionais; no outro, cursos de habilidades específicas. Assim, os alunos não vão sair perdendo, pois:

- terão os conhecimentos de humanidades e de ciências necessários para boa formação;
- terão aprimoradas habilidades específicas para quem quiser logo ingressar no mercado de trabalho, sem perder a perspectiva de um curso superior; 
- ficarão ocupados em dois turnos, evitando os perigos da rua e não dando trabalho aos pais. 

Em contraparte, os professores também sairão ganhando: 

- irá se contratar mais profissionais da educação;
- irá incentivar a formação de mais profissionais, incrementando a vida nas universidades (seja particular ou pública); 
- dará uma vida única ao profissional, não tendo que dividir com outras atividades para compor sua renda;
- além de aumentar a autoestima não só dos docentes mas de todos envolvidos.


Mas infelizmente, através de cortes com o falseamento do termo interdisciplinariedade, tirando a obrigatoriedade do ensino integral de Biologia, Química, Física, Espanhol, História, Sociologia, Filosofia e Educação Física, as únicas obsessões do governo são:

- tirar o acesso das camadas mais baixas a um ensino amplo e de qualidade;
- empurrá-los para um mercado de trabalho, cuja mão de obra é barata;
- aculturá-los de toda questão social e política - e ainda éticas e afetivas -, tornado-os acríticos e meros serviçais automatizados; 
- extinguir professores concursados e colocar terceirizados, com garantias trabalhistas precárias;
- reduzir seus salários com a pressão de contingentes de desempregados;
- moldá-los numa aula dirigida e estéril, sem debates vivos e críticos; 
- criar disputas internas em nome de uma "pseudo-meritocracia";
- evitar reivindicações, como as  greves, previstas pela Constituição; 
- sufocar o amplo debate democrático sobre a condução pedagógica.


Diante disso, é hora dos pais, alunos, profissionais da educação (de merendeiras a diretores)... enfim, é hora de TODOS dizerem NÃO ao "Novo Ensino Médio" sem o amplo e imprescindível debate popular.


Grato pela atenção,

Prof. Ivonilton Gonçalves de Souza

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Psicanalítico


Poderia rimar maio
à palavra desmaio.
Mas fazê-lo? Pra quê?
Não é poesia, é apelo.
Dramalhão de tevê.

                *        

Em desmaio de sonso
é mais sábio dormir.
Mais verdade no sonho
que o sapo o verbo polir.



sexta-feira, 28 de maio de 2021

O depois das coisas


Sim. Haverá certo dia
que não se deseja mais
que a exata lucidez do sol
a esquadrinhar as sombras
entre as paredes e memórias
da sua tênue descida.

Sim. Haverá certo dia
que irá valer muito mais
a nudez sem voz do azul
descortinado do céu
que a policromia veloz
do beija-flor audaz.

Sim. Haverá certo dia
que basta uma simples brisa
pra se ter mais aventura
que no cume do Himalaia.
E a lassidão da preguiça
vem pôr fim a bruta luta.

Esse dia será tão certo 
como o curso das formigas,
o rezar contas do terço,
o inabalável metal
do sino às seis da tarde
e a fluidez da vogal

sem palavra. Já no berço
circunspecto da idade,
emenda-se os fios da vida
com a certeza da saudade.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Mão de obra excedente


A mão de obra excedente (desempregados) é um grande negócio para o capitalismo. Abaixa os salários, pressiona quem está trabalhando a produzir como um cordeiro, que não se sabe realmente se é de Deus, "justifica" a não implementação de benefícios trabalhistas, pois "não teria pra todos". E agora serve como cabo eleitoral de Bolsonaro para atacar as necessárias medidas de isolamento contra a Covid, em vez de dar suporte social. 

O que  há é uma grande mentira quando o poder executivo, fantoche dos megas empresários, diz que quer solucionar o desemprego. Não quer! O capitalismo, da maneira avassaladora que é dado, precisa dele como escudo para reivindicações trabalhistas, conquanto que esse nível não fique fora de certos limites, o que acarretaria distúrbios  sociais e, pior que isso, um endividamento que teria efeito cascata, atingindo até os credores. 

Mesmo assim parece que a resiliência, a passividade dos brasileiros (até certo ponto justificável por um "salve-se quem puder" mas com complexo de vira-lata), sob comando de igrejas de má fé, entusiasma a alta burguesia a suportar mais que um limite razoável de miseráveis, levando sem piedade - e pondo toda culpa na falaciosa meritocracia - muita gente para o céu bem antes do que se imagina. Multiplicando mais fome do que pão. Mais desesperança que confraternização.