quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Christiane Soares

Amanhecer

O tempo esvoaça as folhas dos galhos,
um chilrear de andorinhas redemoinha o ar
e o que era turbilhão
é cristal 
             e pingo
no sol da manhã.

sábado, 23 de março de 2013

Insight

A vida é tão fugaz
que nem temos tempo de perceber
se se faz poesia ou intento
na fagulha do ser.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A pedra e o pensamento


Chega-se determinada hora
que o pensamento não mais se move.
É lago de sombras e silêncio,
calcado num suspiro-memória.

Chega-se determinado dia
que o pensar range junto aos ossos.
É cismar de relógio no quarto.
Poer se fazendo, palha de vida.

Chega-se num impensável tempo
que tal pensamento é laje fria
sob o sol. E até da estupidez
da pedra. E do formol consenso.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Notas sobre o pensamento


Pensamos andando,
porque parar pra pensar
é ter uma pedra no calcanhar.

*            *            *

Pensamos ao andar,
porque andando
contamos aos nossos passos,
que não contam conosco
da esquina ao dobrar.

*             *            *

Pensamos andando
ou é o sonho: anda,
para num sinal
depois, atravessar.

*             *             *

Paramos de pensar
quando pisamos pensamentos
feitos de ar.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Nome ou codinome?


Por não saberem da minha dor,
me chamam de Professor.

Por não saberem meu nome inteiro,
me chamam de Livreiro.

Por não saberem da minha meta,
me chamam de Poeta.

Por saberem mais que tudo,
me chamam de Maluco.

Mas chamem-me só de Ivo,
que eu assino o livro.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Longa-metragem


Ele, o grande amor, vai em câmera lenta,
no quase instante (lascivo) da gota.
Em close, para eternizar a cena.
Em off, para não perder o pudor.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Com meu amor


O que vou fazer com meu amor?
Guardá-lo (silêncio de baú),
enrolá-lo em panos amarelados,
como mudo instante que passou?

Inventariar roupas esquecidas,
brancos lençóis e grandes saias
que flutuam varais de lembranças
ao roçar a brisa adormecida?

Irei trazê-lo, embrulhado aos braços,
como aquele pão mal-dormido
na longa insistência do amanhã,
na curta existência do ocaso?

Com meu amor terei borboletas
sem destino. Mas com afinco
ao quieto sentido: vagalumes.
E topo na pedra-destino.