Em casa
Não leve isso como um poema,
já que hoje não quis escrever.
Quis o branco do teto no quarto,
desabafar aos dedos dos pés,
inquirir um mosquito que distrai,
contar planos aos travesseiros.
E inscrever-me na paz da solidão.
Bukowski e a literatura
Outro dia um amigo sociólogo (detalhe que pode nos ajudar) comentou que a literatura tinha que ser objetiva. E citou Bukowski como exemplo. Ora, se o papel da literatura é ser objetiva, ela perde sua razão de ser. Pelo menos no sentido pleno do termo. Mas por quê? Porque o papel da literatura não é dar respostas prontas a problemas. Assim ela não se confunde com o discurso religioso, com a sociologia, com a filosofia, com a ciência, com a psicologia, com retórica jurídica. Ela possui, portanto, um estatuto próprio, uma singularidade. Singularidade que, claro, se interpenetra em outros saberes, mas não é nenhum deles. Não cabe ao texto literário afirmar, mas sim sugerir o que poderia ser, cuja decisão está mais nas mãos do leitor, tornando-o ativo e, de certa maneira, co-autor da obra. Prova isso o fracasso de Bentinho (ex-seminarista e advogado) de descobrir a verdade de Capitu, cabendo a suposta responsabilidade a quem lê o romance de Machado de Assis.
Teria sido mais fácil, se não era esse o propósito da afirmação, dizer que a literatura deveria ser simples. Nesse sentido podemos concordar. Tendo em vista que uma mensagem simples pode ser extremamente bem sucedida e trazer experiências sinceras, vivas e imediatas. E ainda assim, não perder todo caleidoscópio semântico tão característico ao texto literário. Cite-se como exemplo uma Adélia Prado, um "No meio do caminho", de Drummond, ou mesmo uma crônica de Rubem Braga...
Mas vamos, enfim, ao tão famoso Bukowski. Evidentemente que a crítica literária não se esgota nela mesma. Depois da crítica biográfica, sociológica, positivista e impressionista, teve seu estatuto definido com o Estruturalismo e A nova crítica, passando nos tempos atuais por desconstruções e mergulhando num jogo infindável de significacões, espelhamentos e transversalidades com outras disciplinas. E o que isso tem a ver com o citado autor? Simples. Se a obra literária autêntica revela-se através de várias significacões, quanto mais ela for rica nesse sentido mais possibilidades interpretativas se abrem. E mais uma vez: isso não se confunde com simplicidade, pois uma "pedra" no poema famoso de Drummond pode ter vários sentidos, sendo uma construção extremamente singela. O mesmo, porém, não se pode dizer de Bukowski. Seu caráter direto e objetivo, como quer meu amigo, não nos leva a grandes voos da imaginação. A não ser a um mundo capitalista com valores deteriorados e consumistas (por isso é pop). Talvez o mais importante nesse autor seja justamente essa sátira. Essa representação do "American way of life". Nada mais que isso. Já ouvi dizer, muito bem colocado, aliás, que a literatura europeia (Proust, Camus, Sartre etc) estaria mais preocupada com questões ontológicas e a Norte Americana com questões práticas, pragmáticas. Isso bem o mostra Umberto Eco em "Apocalípticos e Integrados", onde, comparando Proust com Hemingway, diz que as emoções de "Em busca do tempo perdido" se passam de maneira mais lenta, de indas e vindas, demoram a amadurecer, aos poucos vão construindo sentimentos e sensacões, que a qualquer momento podem escapar; enquanto no livro "O velho e o mar", do outro autor, tudo se dá de uma maneira mais rápida, mais consumível, mais fugaz. E por isso mesmo mais impactante.
Mas nem tudo está perdido para Bukowski. Se não traz riqueza interpretativa, labirintos da alma, questionamentos existenciais, matafísica, pode se servir muito bem para uma análise contundente do modo de vida americano e do homem moderno em geral. Por isso, se presta sim a uma análise mais sociológica, como um Zola de outros tempos ou uma sátira religiosa de Voltaire, do que propriamente literária. Se presta mais a traçar perfis de uma sociedade, de tipos e de uma época do que enquadrá-la em riquezas de imagens e metáforas. Não há muitos rumos aonde seguir. Os personagens são planos, óbvios, as ações secas, os propósitos bem definidos. A linguagem surpreende por um coloquialismo audaz para época. Mas nada de revolucionário como um Guimarães Rosa ou Joyce. Nada que fuja muito ao senso comum. Com excessão de uma dose de aventura, rebeldia e sarcasmo, acompanhados naturalmente com algumas garrafas de whisky. E isso já diz tudo.
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra”, Paulo Freire
Os livros e a parede
Com celular numa das mãos e no meio de uma obra, seu Jorge, 39 anos, 4a série incompleta (ou melhor, por completar junto com o reboco de seu barraco), pedreiro de profissão - e olha que diziam ser bom nisso - coçava a cabeça com um metro e tentava explicar. Mas...
- Pois então, seu Jorge. Na parede. Tá muito feio, entende?
- Sei. Mas é que...
- Tenho uma certa pressa. Tá tudo mofado. Infiltração, entende?
- Sei... É que agora...
- Meu filho tá com asma, minha mãe tá com renite. E minha esposa não para de reclamar, entende?
- Sei... Como eu ia dizendo....
- É bem atrás da estante. E tem livros. Muitos livros. Alguns raros até. É bem atrás deles. Uma mancha enorme... E preciso dos livros inteiros. Tenho que terminar meu doutorado, entende?
- Sei. Mas...
- E ando meio sem dinheiro, seu Jorge. Mas tenho que resolver isso urgentemente. Acho que vem do banheiro, do cano do banheiro. É uma mancha que caberia duas pessoas, entende?
- Sei. Olha...
- Então, seu Jorge. Você sabe como resolver isso e por quanto vai ficar?
- Sei... É o que eu tava tentando te dizer...
- Então diga logo, seu Jorge, diga... Por quanto, bem baratinho, por favor... Por quanto sai?...
- Aí... dr. Arnaldo... não sei...
- Como não sabe?!
- É que eu tenho que ir aí estudar.
A Cláudia Rocha
Poema dos sete erros
Ainda que o juízo, amor
seja sinuoso tal rio
que dos altos vales cai
e se biparte - igual setas
de relógio - por lâminas
afiadíssimas de pedras,
ainda é isso: mangue e calor.
Ainda que seja estranho,
ainda é juízo sim: a raiz
do raio que reparte o céu
da erva que reparte terra
da terra que reparte homens
dos homens desajuizados
cujo ar é de chumbo e estanho.
Há juízo ainda em borboleta
sem rumo certo, na concha
do coração nu e profundo,
nos nós cegos dos seus dedos,
das mãos cujos alvos ossos
rangem como velha porta
de casa escura, à espreita.
Há juízo ainda na revolta
dos mares, na tempestade
sem perdão (lâmina arisca),
e ainda na fome infinita
de quem não tem nem sol, paz
e pão. Mas peito aberto na fé
pois o que prende um dia solta.
Tal piscar de vagalume,
vi mais juízo na gramática
etílica e vil dos poetas,
a vasculhar sal e silêncios
nos passinhos das formigas,
do que o pisar (des)botado
que sentencia - e resume.
Tal relâmpago no bosque,
vi mais juízo da criança
sentada ao meio-fio do mundo
em contar pingos na poça
do que o general de estrelas
contar vitórias e baixas,
igual baiacu que incha e explode.
Se me pedes juízo, amor
te digo que ainda prefiro
um erro seguro na mão
a dois acertos voando.
É claro, não como pássaros
mas como míssil balístico
de precisão incerta e dor.
O poema e o varal
Sim! Escrever um poema
é bem mais fácil, amiga,
do que desvendar o esquema
de barbantes varal acima.
Para montar um varal
tem que bem entender da arte
que divide o fio em igual
cujo gancho alça sua parte.
Mas para escrever um verso
basta a força plena, corpo.
De dentro sai como feto
e ganha alma, nome e rosto.
Se o varal procura regra
o poema é, após forte chuva,
úmido arfar, suor da terra
ao sol e à palavra oculta.
Se o varal é de vidro, quebra,
o poema é duro, de pedra.
Se o varal é cálculo, lógico,
o poema é fagulha, só ócio.
Diante tudo isso, senhora,
melhor mandá-lo consertar.
E enquanto ainda há sol lá fora,
estender versos sob o ar.
O dentro e o fora: o tempo
No dia 20 de outubro
ela parou de marcar seu calendário.
Parou como o azul
para na gaivota.
Parou como o monte
para na névoa.
Parou como o oceano
para na geleira.
Parou como o infinito
para no instante.
O ano? – agora não importa mais.
Se era manhã ou tarde, não importa.
Se era frio ou calor, não importa.
Se desatino ou dor, não importa.
Se cristã era, não se sabe: tanto faz.
Foi no dia 20, mês de outubro,
bem atrás da porta, no armário
cujas roupas de lã, luto e veludo
(ou de alguma rima da infância)
que ela se fechou na lembrança
bem juntinha ao seu calendário.
Talvez percebesse que, daí em diante, todos os dias seriam dia
20 de outubro.
Ou de qualquer outro mês.
Como todas moscas nas mesmas xícaras de café ao amanhecer
como todo vento em folhas secas é silêncio de chuva e
saudade
como todo morder de maçã é como pá que escava e fere a terra
como todo mato é afiadíssimo como facas apontadas para o céu
e todo céu é escudo de chumbo antes da tempestade chegar
e ainda toda impotência das buzinas na av. Presidente Vargas
(teria trabalhado lá?)
[ao sol da tarde, a mesma de séculos
e os séculos os mesmos a cada gesto intolerante e inafiançável
[do homem na natureza.
ela parou de marcar seu calendário.
Mas no dia 21...
Bem... esse dia...
Esse um não existia mais.